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Introdução
1. Com a luz do Senhor
ressuscitado e com a força do Espírito
Santo, nós os bispos da América nos reunimos
em Aparecida, Brasil, para celebrar a V Conferência
Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe. Fizemos
isso como pastores que querem seguir estimulando a ação
evangelizadora da Igreja, chamada a fazer de todos os
seus membros discípulos e missionários
de Cristo, Caminho, Verdade e Vida para que nossos povos
tenham vida n’Ele. Fazemos isso em comunhão
com todas as Igrejas locais presentes na América.
Maria, Mãe de Jesus Cristo e de seus discípulos,
tem estado muito perto de nós, tem-nos acolhido,
tem cuidado de nós e de nossos trabalhos, amparando-nos,
como a João Diego e a nossos povos, na dobra
de seu manto, sob sua maternal proteção.
Temos pedido a ela, como mãe, perfeita discípula
e pedagoga da evangelização, que nos ensine
a ser filhos em seu Filho e a fazer o que Ele nos disser
(cf. Jo 2,5).
2. Com alegria estivemos
reunidos com o Sucessor de Pedro, Cabeça do Colégio
Episcopal. Sua Santidade Bento XVI confirmou-nos no
primado da fé em Deus, de sua verdade e amor,
para o bem das pessoas e dos povos. Agradecemos a todos
os seus ensinamentos, que foram iluminação
e guia seguro para nossos trabalhos, especialmente,
seu Discurso inaugural. A lembrança agradecida
dos últimos Papas, e em especial por seu rico
Magistério que têm estado também
presente em nossos trabalhos, merece especial memória
e gratidão.
3. Sentimo-nos acompanhados
pela oração de nosso povo católico,
representado visivelmente pela companhia do Pastor e
dos fiéis da Igreja de Deus em Aparecida e pela
multidão de peregrinos de todo Brasil e de outros
países da América ao Santuário,
que nos edificaram e evangelizaram. Na comunhão
dos santos, tivemos presente todos aqueles que nos antecederam
como discípulos e missionários na vinha
do Senhor e especialmente a nossos santos latino-americanos,
entre eles Santo Toríbio de Mogrovejo, patrono
do Episcopado latino-americano.
4. O Evangelho chegou
a nossas terras em meio a um dramático e desigual
encontro de povos e culturas. As “sementes do
Verbo”1
presentes nas culturas autóctones, facilitaram
a nossos irmãos indígenas encontrarem
no Evangelho respostas vitais às suas aspirações
mais profundas: “Cristo era o Salvador que esperavam
silenciosamente”2.
A visitação de Nossa Senhora de Guadalupe
foi acontecimento decisivo para o anúncio e reconhecimento
de seu Filho, pedagogia e sinal de inculturação
da fé, manifestação e renovado
ímpeto missionário de propagação
do Evangelho3.
5. Desde a primeira
evangelização até os tempos recentes
a Igreja tem experimentado luzes e sombras4.
Ela escreveu páginas de nossa história
com grande sabedoria e santidade. Sofreu também
tempos difíceis, tanto por perseguições
como pelas debilidades, compromissos mundanos e incoerências,
em outras palavras, pelo pecado de seus filhos, que
confundiram a novidade do Evangelho, a luminosidade
da verdade e a prática da justiça e da
caridade. No entanto, o mais decisivo na Igreja é
sempre a ação santa de seu Senhor.
6. Por isso, diante
de tudo damos graças a Deus e o louvamos por
tudo o que nos tem sido dado. Acolhemos a toda a realidade
do Continente como um dom: a beleza e fecundidade de
suas terras, a riqueza de humanidade que se expressa
nas pessoas, famílias, povos e culturas do Continente.
Sobretudo, nos tem sido dado Jesus Cristo, a plenitude
da revelação de Deus, um tesouro incalculável,
a “pérola preciosa” (cf. Mt 13,45-46).
Verbo de Deus feito carne, Caminho, Verdade e Vida dos
homens e das mulheres aos quais abre um destino de plena
justiça e felicidade. Ele é o único
Libertador e Salvador que, com sua morte e ressurreição,
rompeu as cadeias opressivas do pecado e da morte, revelando
o amor misericordioso do Pai e a vocação,
dignidade e destino da pessoa humana.
7. As maiores riquezas
de nossos povos são a fé no Deus de amor
e a tradição católica na vida e
na cultura. Manifesta-se na fé madura de muitos
batizados e na piedade popular que expressa “o
amor a Cristo sofredor, o Deus da compaixão,
do perdão e da reconciliação (...),
o amor ao Senhor presente na Eucaristia (...), - o Deus
próximo dos pobres e dos que sofrem, - a profunda
devoção à Santíssima Virgem
de Guadalupe, de Aparecida ou dos diversos nomes nacionais
e locais”5.
Expressa-se também na caridade que em todas as
partes anima gestos, obras e caminhos de solidariedade
para com os mais necessitados e desamparados. Está
presente também na consciência da dignidade
da pessoa, na sabedoria diante da vida, na paixão
pela justiça, na esperança contra toda
esperança e na alegria de viver que move o coração
de nosso povo, ainda que em condições
muito difíceis. As raízes católicas
permanecem na arte, linguagem, tradições
e estilo de vida do povo, ao mesmo tempo dramático
e festivo e no enfrentamento da realidade. Por isso,
o Santo padre nos responsabilizou ainda mais, como Igreja,
da “grande tarefa de proteger e alimentar a fé
do povo de Deus”6.
8. O dom da tradição
católica é um cimento fundamental de identidade,
originalidade e unidade da América Latina e do
Caribe: uma realidade histórico-cultural, marcada
pelo Evangelho de Cristo, realidade na qual abunda o
pecado – abandono de Deus, comportamentos viciosos,
de opressão, violência, ingratidões
e misérias – porém, onde superabunda
a graça da vitória pascal. Nossa Igreja
goza, não obstante as debilidades e misérias
humanas, de um alto índice de confiança
e de credibilidade por parte do povo. A Igreja é
morada de povos irmãos e casa dos pobres.
9. A V Conferência
do Episcopado Latino-americano e Caribenho é
um novo passo no caminho da Igreja, especialmente desde
o Concílio Ecumênico Vaticano II. Ela dá
continuidade e, ao mesmo tempo, recapitula o caminho
de fidelidade, renovação e evangelização
das Igrejas latino-americanas a serviço de seus
povos, que se expressou oportunamente nas Conferências
Gerais anteriores do Episcopado (Rio, 1955; Medellín,
1968; Puebla, 1979; Santo Domingo, 1992). Em todas elas
reconhecemos a ação do Espírito.
Também nos lembramos da Assembléia Especial
do Sínodo dos Bispos para América (1997).
10. Esta V Conferência
se propõe “à grande tarefa de conservar
e alimentar a fé do povo de Deus e recordar também
aos fiéis deste continente que, em virtude de
seu batismo, são chamados a serem discípulos
e missionários de Jesus Cristo”7.
Com desafios e exigências, abre-se passagem para
um novo período da história, caracterizado
pela desordem generalizada que se propaga por novas
turbulências sociais e políticas, pela
difusão de uma cultura distante e hostil à
tradição cristã e pela emergência
de variadas ofertas religiosas que tratam de responder,
a sua maneira, à sede de Deus que nossos povos
manifestam.
11. A Igreja é
chamada a repensar profundamente e a relançar
com fidelidade e audácia sua missão nas
novas circunstâncias latino-americanas e mundiais.
Ela não pode fechar-se àqueles que trazem
confusão, perigos e ameaças ou àqueles
que pretendem cobrir a variedade e complexidade das
situações com uma capa de ideologias gastas
ou de agressões irresponsáveis. Trata-se
de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho
arraigada em nossa história, a partir de um encontro
pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte
discípulos e missionários. Isso não
depende de grandes programas e estruturas, mas de homens
e mulheres novos que encarnem essa tradição
e novidade, como discípulos de Jesus Cristo e
missionários de seu reino, protagonistas de uma
vida nova para uma América Latina que deseja
se reconhecer com a luz e a força do Espírito.
12. Uma fé
católica reduzida a conhecimento, a um elenco
de algumas normas e de proibições, a práticas
de devoção fragmentadas, a adesões
seletivas e parciais das verdades da fé, a uma
participação ocasional em alguns sacramentos,
à repetição de princípios
doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não
convertem a vida dos batizados, não resistiria
aos embates do tempo. Nossa maior ameaça “é
o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja
na qual, aparentemente, tudo procede com normalidade,
mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando
em mesquinhez”8.
A todos nos toca “recomeçar a partir de
Cristo”9,
reconhecendo que “não se começa
a ser cristão por uma decisão ética
ou uma grande idéia, mas pelo encontro com um
acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo
horizonte à vida e, com isso, uma orientação
decisiva”10.
13. Na América Latina e no Caribe,
quando muitos de nossos povos se preparam para celebrar
o bi-centenário de sua independência, encontramo-nos
diante do desafio de revitalizar nosso modo de ser católico
e nossas opções pessoais pelo Senhor,
para que a fé cristã se estabeleça
mais profundamente no coração das pessoas
e dos povos latino-americanos como acontecimento fundante
e encontro vivificante com Cristo, manifestado como
novidade de vida e de missão de todas as dimensões
da existência pessoal e social. Isto requer, a
partir de nossa identidade católica, uma evangelização
muito mais missionária, em diálogo com
todos os cristãos e a serviço de todos
os homens. Do contrário, “o rico tesouro
do Continente Americano... seu patrimônio mais
valioso: a fé no Deus de amor...”11
corre os risco de seguir desgastando-se e diluindo-se
de maneira crescente em diversos setores da população.
Hoje se considera escolher entre caminhos que conduzem
à vida ou caminhos que conduzem à morte
(cf. Dt 30.15). Caminhos de morte são os que
levam a dilapidar os bens que recebemos de Deus através
daqueles que nos precederam na fé. São
caminhos que traçam uma cultura sem Deus e sem
seus mandamentos ou inclusive contra Deus, animada pelos
ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero,
a qual termina sendo uma cultura contra o ser humano
e contra o bem dos povos latino-americanos. Os caminhos
de vida verdadeira e plena para todos, caminhos de vida
eterna, são aqueles abertos pela fé que
conduzem à “plenitude de vida que Cristo
nos trouxe: com esta vida divina, também se desenvolve
em plenitude a existência humana, em sua dimensão
pessoal, familiar, social e cultural”12.
Essa é a vida que Deus nos participa por seu
amor gratuito, porque “é o amor que dá
a vida”13.
Estes caminhos frutificam nos dons de verdade e de amor
que nos foram dados em Cristo, na comunhão dos
discípulos e missionários do Senhor, para
que América Latina e Caribe sejam efetivamente
um continente no qual a fé, a esperança
e o amor renovem a vida das pessoas e transformem as
culturas dos povos.
14. O Senhor nos disse:
“não tenham medo” (Mt 28,5). Como
às mulheres na manhã da Ressurreição
nos é repetido: “Por que buscam entre os
mortos aquele que está vivo?” (Lc 24,5).
Os sinais da vitória de Cristo ressuscitado nos
estimulam enquanto suplicamos a graça da conversão
e mantemos viva a esperança que não defrauda.
O que nos define não são as circunstâncias
dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade
ou as tarefas que devemos empreender, mas todo o amor
recebido do Pai, graças a Jesus Cristo pela unção
do Espírito Santo. Esta prioridade fundamental
é a que tem presidido todos os nossos trabalhos
que oferecemos a Deus, à nossa Igreja, a nosso
povo, a cada um dos latino-americanos, enquanto elevamos
ao Espírito Santo nossa súplica para que
redescubramos a beleza e a alegria de ser cristãos.
Aqui está o desafio fundamental que contrapomos:
mostrar a capacidade da Igreja de promover e formar
discípulos que respondam à vocação
recebida e comuniquem em todas as partes, transbordando
de gratidão e alegria, o dom do encontro com
Jesus Cristo. Não temos outro tesouro a não
ser este. Não temos outra felicidade nem outra
prioridade que não seja sermos instrumentos do
Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo
seja encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado
e comunicado a todos, não obstante todas as dificuldades
e resistências. Este é o melhor serviço
– seu serviço! – que a Igreja tem
que oferecer às pessoas e nações14.
15. Nesta hora em
que renovamos a esperança, queremos fazer nossas
as palavras de SS. Bento XVI no início de seu
Pontificado, fazendo eco a seu predecessor, o Servo
de Deus, João Paulo II, e proclamá-las
para toda a América Latina: Não temam!
Abram, abram de par em par as portas a Cristo!... quem
deixa Cristo entrar não perde nada, nada –
absolutamente nada – do que faz a vida livre,
bela e grande. Não! Só com esta amizade
abrem-se as portas da vida. Só com esta amizade
abrem-se realmente as grandes potencialidades da condição
humana. Só com esta amizade experimentamos o
que é belo e o que nos liberta... Não
tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e nos
dá tudo. Quem se dá a Ele, recebe cem
por um. Sim, abram, abram de par em par as portas a
Cristo e encontrarão a verdadeira vida15.
16. “Esta V
Conferência Geral celebra-se em continuidade com
as outras quatro que a precederam no Rio de Janeiro,
Medellín, Puebla e Santo Domingo. Com o mesmo
espírito que as animou, os pastores querem dar
agora um novo impulso à evangelização,
a fim de que estes povos sigam crescendo e amadurecendo
em sua fé, para serem luz do mundo e testemunhas
de Jesus Cristo com sua própria vida”16.
Como pastores da Igreja estamos conscientes de que “depois
da IV Conferência Geral, em Santo Domingo, muitas
coisas mudaram na sociedade. A Igreja, que participa
dos gozos e esperanças, das tristezas e alegrias
de seus filhos, quer caminhar ao seu lado neste período
de tantos desafios, para infundir-lhes sempre esperança
e consolo”17.
17. Nossa alegria,
portanto, baseia-se no amor do Pai, na participação
no mistério pascal de Jesus Cristo que, pelo
Espírito Santo, faz-nos passar da morte para
a vida, da tristeza para a alegria, do absurdo para
o sentido profundo da existência, do desalento
para a esperança que não engana. Esta
alegria não é um sentimento artificialmente
provocado nem um estado de ânimo passageiro. O
amor do Pai nos foi revelado em Cristo que nos convida
a entrar em seu reino. Ele nos ensinou a orar dizendo
“Abba, Pai” (Rm 8,15; cf. Mt 6,9).
18. Conhecer a Jesus
Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo
é uma graça, e transmitir este tesouro
aos demais é uma tarefa que o Senhor, ao nos
chamar e nos eleger, nos confiou. Com os olhos iluminados
pela luz de Jesus Cristo ressuscitado podemos e queremos
contemplar o mundo, a história, os nossos povos
da América Latina e do Caribe e cada um de seus
habitantes.
PRIMEIRA PARTE
A VIDA DE NOSSOS POVOS HOJE
19. Em continuidade
com as Conferências Gerais anteriores do Episcopado
Latino-Americano, este documento faz uso do método
“ver, julgar e agir”. Este método
implica em contemplar a Deus com os olhos da fé
através de sua Palavra revelada e o contato vivificador
dos Sacramentos, a fim de que, na vida cotidiana, vejamos
a realidade que nos circunda à luz de sua providência
e a julguemos segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade
e Vida, e atuemos a partir da Igreja, Corpo Místico
de Cristo e Sacramento universal de salvação,
na propagação do Reino de Deus, que se
semeia nesta terra e que frutifica plenamente no Céu.
Muitas vozes, vindas de todo o Continente ofereceram
contribuições e sugestões nesse
sentido, afirmando que este método tem colaborado
para que vivamos mais intensamente nossa vocação
e missão na Igreja: tem enriquecido nosso trabalho
teológico e pastoral e, em geral, tem-nos motivado
a assumir nossas responsabilidades diante das situações
concretas de nosso continente. Este método nos
permite articular, de modo sistemático, a perspectiva
cristã de ver a realidade; a assunção
de critérios que provêm da fé e
da razão para seu discernimento e valorização,
com sentido crítico; e, em conseqüência,
a projeção do agir como discípulos
missionários de Jesus Cristo. A adesão
crente, alegre e confiada no Deus Pai, Filho e Espírito
Santo e a inserção eclesial, são
pressupostos indispensáveis que garantem a eficácia
deste método18.
CAPÍTULO 1
OS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
20. Nossa reflexão
a respeito do caminho das Igrejas da América
Latina e do Caribe tem lugar em meio à luzes
e sombras de nosso tempo. Afligem-nos, mas não
nos confundem, as grandes mudanças que experimentamos.
Temos recebido dons incalculáveis, que nos ajudam
a olhar a realidade como discípulos missionários
de Jesus Cristo.
21. A presença
cotidiana e cheia de esperança de incontáveis
peregrinos nos lembra dos primeiros seguidores de Jesus
Cristo que foram ao Jordão, onde João
batizava, com a esperança de encontrar o Messias
(cf. Mc 1,5). Eles se sentiram atraídos pela
sabedoria das palavras de Jesus, pela bondade de seu
trato e pelo poder de seus milagres. E pelo assombro
inusitado que a pessoa de Jesus despertava, acolheram
o dom da fé e vieram a ser discípulos
de Jesus. Ao sair das trevas e das sombras de morte
(cf. Lc 1,79) a vida deles adquiriu uma plenitude extraordinária:
a de haver sido enriquecida com o dom do Pai. Viveram
a história de seu povo e de seu tempo e passaram
pelos caminhos do Império Romano, sem esquecer
o encontro mais importante e decisivo de sua vida que
os havia preenchido de luz, de força e de esperança:
o encontro com Jesus, sua rocha, sua paz, sua vida.
22. Assim também
nos ocorre olhar a realidade de nossos povos e de nossa
Igreja, com seus valores, suas limitações,
suas angústias e esperanças. Enquanto
sofremos e nos alegramos, permanecemos no amor de Cristo,
vendo nosso mundo e procurando discernir seus caminhos
com a alegre esperança e a indizível gratidão
de crer em Jesus Cristo. Ele é o Filho de Deus
verdadeiro, o único Salvador da humanidade. A
importância única e insubstituível
de Cristo para nós, para a humanidade, consiste
em que Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida.
“Se não conhecemos a Deus em Cristo e com
Cristo, toda a realidade se torna um enigma indecifrável;
não há caminho e, ao não haver
caminho, não há vida nem verdade”19.
No clima cultural relativista que nos circunda, onde
é aceita só uma religião natural,
faz-se sempre mais importante e urgente estabelecer
e fazer amadurecer em todo o corpo eclesial a certeza
de que Cristo, o Deus de rosto humano, é nosso
verdadeiro e único salvador.
23. Neste encontro,
queremos expressar a alegria de sermos discípulos
do Senhor e de termos sido enviados com o tesouro do
Evangelho. Ser cristão não é uma
carga, mas um dom: Deus Pai nos abençoou em Jesus
Cristo seu Filho, Salvador do mundo.
1.1. Ação de
graças a Deus
24. Bendito seja Deus,
Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou
com toda sorte de bênçãos na pessoa
de Cristo (cf. Ef 1,3). O Deus da Aliança, rico
em misericórdia, nos amou primeiro; imerecidamente
amou a cada um de nós; por isso o bendizemos,
animados pelo Espírito Santo, Espírito
vivificador, alma e vida da Igreja. Ele, que foi derramado
em nossos corações, geme e intercede por
nós e, com seus dons nos fortalece em nosso caminho
de discípulos e missionários.
25. Bendizemos a Deus
com ânimo agradecido, porque nos chamou para sermos
instrumentos de seu reino de amor e de vida, de justiça
e de paz, pelo qual tantos se sacrificaram. Ele mesmo
nos encomendou a obra de suas mãos para que cuidemos
dela e a coloquemos a serviço de todos. Agradecemos
a Deus por nos fazer seus colaboradores para que sejamos
solidários com sua criação pela
qual somos responsáveis. Bendizemos a Deus que
nos deu a natureza criada que é seu primeiro
livro para possamos conhecer a Ele e viver nela como
em nossa casa.
26. Damos graças
a Deus que nos deu o dom da palavra, com a qual podemos
nos comunicar entre nós e com Ele por meio de
seu Filho, que é sua Palavra (cf. Jo 1,1). Damos
graças a Ele que, por seu grande amor fala a
nós como a amigos (cf. Jo 15,14-15). Bendizemos
a Deus que se nos dá na celebração
da fé, especialmente na Eucaristia, pão
de vida eterna. A ação de graças
a Deus pelos numerosos e admiráveis dons que
nos outorgou culmina na celebração central
da Igreja, que é a Eucaristia, alimento substancial
dos discípulos e missionários. Também
pelo Sacramento do Perdão de Cristo que nos alcançou
na cruz. Louvamos ao Senhor Jesus pelo presente de sua
Mãe Santíssima, Mãe de Deus e Mãe
da Igreja na América Latina e do Caribe, estrela
da evangelização renovada, primeira discípula
e grande missionária de nossos povos.
1.2. A alegria de ser discípulos
e missionários de Jesus Cristo
27. Iluminados pelo
Cristo, o sofrimento, a injustiça e a cruz nos
desafiam a viver como Igreja samaritana (cf. Lc 10,25-37),
recordando que “a evangelização
vai unida sempre à promoção humana
e à autêntica libertação
cristã”20.
Damos graças a Deus e nos alegramos pela fé,
solidariedade e alegria características de nossos
povos, transmitidas ao longo do tempo pelas avós
e avôs, as mães e pais, os catequistas,
os rezadores e tantas pessoas anônimas, cuja caridade
mantém viva a esperança em meio às
injustiças e adversidades.
28. A Bíblia
mostra reiteradamente que, quando Deus criou o mundo
com sua Palavra, expressou satisfação,
dizendo que era “bom” (Gn 1,21), e quando
criou o ser humano, homem e mulher, disse que “era
muito bom” (Gn 1,31). O mundo criado por Deus
é belo. Procedemos de um desígnio divino
de sabedoria e amor. Mas, através do pecado esta
beleza originária foi desonrada e esta bondade
ferida. Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, em seu
mistério pascal, recriou o homem fazendo-o filho
e dando a ele a garantia de novos céus e de uma
nova terra (cf. Ap 21,1). Levamos a imagem do primeiro
Adão, mas somos chamados também, desde
o princípio, a produzir a imagem de Jesus Cristo,
novo Adão (cf. 1 Cor 15,45). A criação
leva a marca do Criador e deseja ser libertada e “participar
na gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm
8,21).
1.3. A missão da Igreja
é evangelizar
29. A história
da humanidade, história que Deus nunca abandona,
transcorre sob seu olhar compassivo. Deus amou tanto
nosso mundo que nos deu seu Filho. Ele anuncia a boa
nova do Reino aos pobres e aos pecadores. Por isso,
nós, como discípulos e missionários
de Jesus, queremos e devemos proclamar o Evangelho,
que é o próprio Cristo. Anunciamos a nossos
povos que Deus nos ama, que sua existência não
é uma ameaça para o homem, que Ele está
perto com o poder salvador e libertador de seu Reino,
que Ele nos acompanha na tribulação, que
alenta incessantemente nossa esperança em meio
a todas as provas. Os cristãos são portadores
de boas novas para a humanidade, não profetas
de desventuras.
30. A Igreja deve
cumprir sua missão seguindo os passos de Jesus
e adotando suas atitudes (cf. Mt 9,35-36). Ele, sendo
o Senhor, fez-se servo e obediente até a morte
de cruz (cf. Fl 2,8); sendo rico, escolheu ser pobre
por nós (cf. 2 Cor 8,9), ensinando-nos o caminho
de nossa vocação de discípulos
e missionários. No Evangelho aprendemos a sublime
lição de ser pobres seguindo a Jesus pobre
(cf. Lc 6,20; 9,58), e a de anunciar o Evangelho da
paz sem bolsa ou alforje, sem colocar nossa confiança
no dinheiro nem no poder deste mundo (cf. Lc 10,4 ss).
Na generosidade dos missionários se manifesta
a generosidade de Deus, na gratuidade dos apóstolos
aparece a gratuidade do Evangelho.
31. No rosto de Jesus
Cristo, morto e ressuscitado, maltratado por nossos
pecados e glorificado pelo Pai, nesse rosto doente e
glorioso21, com
o olhar da fé podemos ver o rosto humilhado de
tantos homens e mulheres de nossos povos e, ao mesmo
tempo, sua vocação à liberdade
dos filhos de Deus, à plena realização
de sua dignidade pessoal e à fraternidade entre
todos. A Igreja está a serviço de todos
os seres humanos, filhos e filhas de Deus.
32. Desejamos que
a alegria que recebemos no encontro com Jesus Cristo,
a quem reconhecemos como o Filho de Deus encarnado e
redentor, chegue a todos os homens e mulheres feridos
pelas adversidades; desejamos que a alegria da boa nova
do Reino de Deus, de Jesus Cristo vencedor do pecado
e da morte, chegue a todos quantos jazem à beira
do caminho, pedindo esmola e compaixão (cf. Lc
10,29-37; 18,25-43). A alegria do discípulo é
antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro
e agoniado pela violência e pelo ódio.
A alegria do discípulo não é um
sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza
que brota da fé, que serena o coração
e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus.
Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer
pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor
que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido
com nossa palavra e obras é nossa alegria.
CAPÍTULO 2
OLHAR DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS SOBRE
A REALIDADE
2.1 A realidade que nos desafia
como discípulos e missionários
33. Os povos da América
Latina e do Caribe vivem hoje uma realidade marcada
por grandes mudanças que afetam profundamente
suas vidas. Como discípulos de Jesus Cristo,
sentimo-nos desafiados a discernir os “sinais
dos tempos”, à luz do Espírito Santo,
para nos colocar a serviço do Reino, anunciado
por Jesus, que veio para que todos tenham vida e “para
que a tenham em abundância” (Jo 10,10).
34. A novidade destas
mudanças, diferentemente do ocorrido em outras
épocas, é que elas têm um alcance
global que, com diferenças e matizes, afetam
o mundo inteiro. Habitualmente elas são caracterizadas
como o fenômeno da globalização.
Um fator determinante destas mudanças é
a ciência e a tecnologia, com sua capacidade de
manipular geneticamente a própria vida dos seres
vivos, e com sua capacidade de criar uma rede de comunicações
de alcance mundial, tanto pública como privada,
para interagir em tempo real, ou seja, com simultaneidade,
não obstante as distâncias geográficas.
Como se costuma dizer, a história se acelerou
e as próprias mudanças se tornam vertiginosas,
visto que se comunica com grande velocidade a todos
os cantos do planeta.
35. Esta nova escala
mundial do fenômeno humano traz conseqüências
em todos os campos de atividade da vida social, impactando
a cultura, a economia, a política, as ciências,
a educação, o esporte, as artes e também,
naturalmente, a religião. Interessa-nos, como
pastores da Igreja, saber como este fenômeno afeta
a vida de nossos povos e o sentido religioso e ético
de nossos irmãos que buscam infatigavelmente
o rosto de Deus, e que, no entanto, devem fazê-lo,
agora desafiados por novas linguagens do domínio
técnico, que nem sempre revelam, mas que também
ocultam o sentido divino da vida humana redimida em
Cristo. Sem uma clara percepção do mistério
do Deus, o desígnio amoroso e paternal de uma
vida digna para todos os seres humanos torna-se opaco
também.
36. Neste novo contexto
social, a realidade para o ser humano se tornou cada
vez mais sem brilho e complexa. Isto quer dizer que
qualquer pessoa individual necessita sempre mais informação
se deseja exercer sobre a realidade o senhorio a que,
por vocação, está chamada. Isto
tem nos ensinado a olhar a realidade com mais humildade,
sabendo que ela é maior e mais complexa que as
simplificações com que costumávamos
vê-la em um passado ainda não muito distante
e que, em muitos casos, introduziram conflitos na sociedade,
deixando muitas feridas que ainda não conseguiram
cicatrizar. Também se tornou difícil perceber
a unidade de todos os fragmentos dispersos que resultam
da informação que reunimos. É freqüente
que alguns queiram olhar a realidade unilateralmente
a partir da informação econômica,
outros a partir da informação política
ou científica, outros a partir do entretenimento
ou do espetáculo. No entanto, nenhum destes critérios
parciais consegue nos propor um significado coerente
para tudo o que existe. Quando as pessoas percebem esta
fragmentação e limitação,
costumam se sentir frustradas, ansiosas, angustiadas.
A realidade social parece muito grande para uma consciência
que, levando em consideração sua falta
de saber e de informação, facilmente se
crê insignificante, sem ingerência alguma
nos acontecimentos, mesmo quando soma sua voz a outras
vozes que procuram se ajudar reciprocamente.
37. Esta é
a razão pela qual muitos estudiosos de nossa
época sustentam que a realidade traz inseparavelmente
uma crise do sentido. Eles não se referem aos
múltiplos sentidos parciais que cada um pode
encontrar nas ações cotidianas que realiza,
mas ao sentido que dá unidade a tudo o que existe
e nos sucede na experiência, e que os cristãos
chamam de sentido religioso. Habitualmente, este sentido
se coloca a nossa disposição através
de nossas tradições culturais que representam
a hipótese de realidade com que cada ser humano
pode olhar o mundo em que vive. Em nossa cultura latino-americana
e caribenha conhecemos o papel tão nobre e orientador
que a religiosidade popular desempenha, especialmente
a devoção mariana, que contribuiu para
nos tornar mais conscientes de nossa comum condição
de filhos de Deus e de nossa comum dignidade perante
seus olhos, não obstante as diferenças
sociais, étnicas ou de qualquer outro tipo.
38. No entanto, devemos
admitir que esta preciosa tradição começa
a se diluir. A maioria dos meios de comunicação
de massa nos apresentam agora novas imagens, atrativas
e cheias de fantasia. Ainda que todos saibam que elas
não podem mostrar o sentido unitário de
todos os fatores da realidade, oferecem ao menos o consolo
de ser transmitidas em tempo real, ao vivo e direto,
com atualidade. Longe de preencher o vazio produzido
em nossa consciência pela falta de um sentido
unitário da vida, em muitas ocasiões a
informação transmitida pelos meios só
nos distrai. A falta de informação só
se resolve com mais informação, retro-alimentando
a ansiedade de quem percebe que está em um mundo
opaco o qual não compreende.
39. Este fenômeno
talvez explique um dos fatos mais desconcertantes e
originais que vivemos no presente. Nossas tradições
culturais já não se transmitem de uma
geração à outra com a mesma fluidez
que no passado. Isso afeta, inclusive, esse núcleo
mais profundo de cada cultura, constituído pela
experiência religiosa, que parece agora igualmente
difícil de ser transmitido através da
educação e da beleza das expressões
culturais, alcançando inclusive a própria
família que, como lugar do diálogo e da
solidariedade inter-geracional, havia sido um dos veículos
mais importantes da transmissão da fé.
Os meios de comunicação invadiram todos
os espaços e todas as conversas, introduzindo-se
também na intimidade do lar. Ao lado da sabedoria
das tradições, em competição,
localizam-se agora a informação de último
minuto, a distração, o entretenimento,
as imagens dos vencedores que souberam usar a seu favor
as ferramentas tecnológicas e as expectativas
de prestígio e estima social. Isso faz com que
as pessoas busquem denodadamente uma experiência
de sentido que preencha as exigências de sua vocação,
ali onde nunca poderão encontrá-la.
40. Entre os pressupostos
que enfraquecem e menosprezam a vida familiar encontramos
a ideologia de gênero, segundo a qual cada um
pode escolher sua orientação sexual, sem
levar em consideração as diferenças
dadas pela natureza humana. Isto tem provocado modificações
legais que ferem gravemente a dignidade do matrimônio,
o respeito ao direito à vida e a identidade da
família22.
41. Por esta razão,
os cristãos precisam recomeçar a partir
de Cristo, a partir da contemplação de
quem nos revelou em seu mistério a plenitude
do cumprimento da vocação humana e de
seu sentido. Necessitamos nos fazer discípulos
dóceis, para aprende d’Ele, em seu seguimento,
a dignidade e a plenitude de vida. E necessitamos, ao
mesmo tempo, que o zelo missionário nos consuma
para levar ao coração da cultura de nosso
tempo aquele sentido unitário e completo da vida
humana que nem a ciência, nem a política,
nem a economia nem os meios de comunicação
poderão proporcionar. Em Cristo Palavra, Sabedoria
de Deus (cf. 1 Cor 1,30), a cultura pode voltar a encontrar
seu centro e sua profundidade, a partir de onde é
possível olhar a realidade no conjunto de todos
seus fatores, discernindo-os à luz do Evangelho
e dando a cada um seu lugar e sua dimensão adequada.
42. Como nos disse
o Papa em seu discurso inaugural: “só quem
reconhece a Deus, conhece a realidade e pode responder
a ela de modo adequado e realmente humano”23.
A sociedade que coordena suas atividades só mediante
múltiplas informações, acredita
que pode operar de fato como se Deus não existisse.
Mas a eficácia dos procedimentos conseguida mediante
a informação, ainda que com as tecnologias
mais desenvolvidas, não consegue satisfazer o
desejo de dignidade inscrito no mais profundo da vocação
humana. Por isso, não basta supor que a mera
diversidade de pontos de vista, de opções
e, finalmente, de informações, que costuma
receber o nome de pluri ou multiculturalidade, resolverá
a ausência de um significado unitário para
tudo o que existe. A pessoa humana é, em sua
própria essência, aquele lugar da natureza
para onde converge a variedade dos significados em uma
única vocação de sentido. As pessoas
não se assustam com a diversidade. O que de fato
as assusta é não conseguir reunir o conjunto
de todos estes significados da realidade em uma compreensão
unitária que lhes permita exercer sua liberdade
com discernimento e responsabilidade. A pessoa sempre
procura a verdade de seu ser, visto que é esta
verdade que ilumina a realidade de tal modo que possa
se desenvolver nela com liberdade e alegria, com gozo
e esperança.
2.1.1 Situação
Sócio-cultural
43. Portanto, a realidade
social que em sua dinâmica atual descrevemos com
a palavra globalização, antes que qualquer
outra dimensão, impacta a nossa cultura e o modo
como nos inserimos e nos apropriamos dela. A variedade
e a riqueza das culturas latino-americanas, desde aquelas
mais originárias até aquelas que com a
passagem da história e a mestiçagem de
seus povos foram se sedimentando nas nações,
nas famílias, nos grupos sociais, nas instituições
educativas e na convivência cívica, constitui
um dado bastante evidente para nós o qual valorizamos
como uma singular riqueza. O que hoje em dia está
em jogo não é a diversidade que os meios
de comunicação são capazes de individualizar
e registrar. O que ninguém esquece é,
pelo contrário, a possibilidade de que esta diversidade
possa convergir em uma síntese que, envolvendo
a variedade de sentidos, seja capaz de projetá-la
em um destino histórico comum. Nisto reside o
valor incomparável do ânimo mariano de
nossa religiosidade popular que, sob distintos nomes,
tem sido capaz de fundir as histórias latino-americanas
diversas em uma história compartilhada: aquela
que conduz a Cristo, Senhor da vida, em quem se realiza
a mais alta dignidade de nossa vocação
humana.
44. Vivemos uma mudança
de época cujo nível mais profundo é
o cultural. Dissolve-se a concepção integral
do ser humano, sua relação com o mundo
e com Deus; “aqui está precisamente o grande
erro das tendências dominantes do último
século... Que excluem Deus de seu horizonte,
falsificam o conceito da realidade e só podem
terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas24.
Surge hoje, com grande força, uma sobrevalorização
da subjetividade individual. Independentemente de sua
forma, a liberdade e a dignidade da pessoa são
reconhecidas. O individualismo enfraquece os vínculos
comunitários e propõe uma radical transformação
do tempo e do espaço, dando um papel primordial
à imaginação. Os fenômenos
sociais, econômicos e tecnológicos estão
na base da profunda vivência do tempo, ao que
se concebe fixado no próprio presente, trazendo
concepções de inconsistência e instabilidade.
Deixa-se de lado a preocupação pelo bem
comum para dar lugar à realização
imediata dos desejos dos indivíduos, à
criação de novos e, muitas vezes, arbitrários
direitos individuais, aos problemas da sexualidade,
da família, das enfermidades e da morte.
45. A ciência
e a tecnologia quando colocadas exclusivamente a serviço
do mercado, com os critérios únicos da
eficácia, da rentabilidade e do funcional, criam
uma nova visão da realidade. A utilização
dos meios de comunicação de massa está
introduzindo na sociedade um sentido estético,
uma visão a respeito da felicidade, uma percepção
da realidade e até uma linguagem, que se querem
impor como uma autêntica cultura. Deste modo,
termina-se por destruir o que de verdadeiramente humano
há nos processos de construção
cultural, que nascem do intercâmbio pessoal e
coletivo.
46. Verifica-se, em
nível intenso, uma espécie de nova colonização
cultural pela imposição de culturas artificiais,
desprezando as culturas locais e com tendência
a impor uma cultura homogeneizada em todos os setores.
Esta cultura se caracteriza pela auto-referência
do indivíduo, que conduz à indiferença
pelo outro, de quem não necessita e por quem
não se sente responsável. Prefere-se viver
o dia a dia, sem programas a longo prazo nem apegos
pessoais, familiares e comunitários. As relações
humanas estão sendo consideradas objetos de consumo,
conduzindo a relações afetivas sem compromisso
responsável e definitivo.
47. Também
se verifica uma tendência para a afirmação
exasperada de direitos individuais e subjetivos. Esta
busca é pragmática e imediatista, sem
preocupação com critérios éticos.
A afirmação dos direitos individuais e
subjetivos, sem um esforço semelhante para garantir
os direitos sociais culturais e solidários, resulta
em prejuízo da dignidade de todos, especialmente
daqueles que são mais pobres e vulneráveis.
48. Nesta hora da
América Latina e do Caribe, é imperativo
tomar consciência da situação precária
que afeta a dignidade de muitas mulheres. Algumas desde
crianças e adolescentes, são submetidas
a múltiplas formas de violência dentro
e fora de casa: tráfico, violação,
escravização e assédio sexual;
desigualdades na esfera do trabalho, da política
e da economia; exploração publicitária
por parte de muitos meios de comunicação
social que as tratam como objeto de lucro.
49. As mudanças
culturais modificaram os papéis tradicionais
de homens e mulheres, que procuram desenvolver novas
atitudes e estilos de suas respectivas identidades,
potencializando todas suas dimensões humanas
na convivência cotidiana, na família e
na sociedade, às vezes por vias equivocadas.
50. A avidez do mercado
descontrola o desejo de crianças, jovens e adultos.
A publicidade conduz ilusoriamente a mundos distantes
e maravilhosos, onde todo desejo pode ser satisfeito
pelos produtos que têm um caráter eficaz,
efêmero e até messiânico. Legitima-se
que os desejos se tornem felicidade. Como só
se necessita do imediato, a felicidade se pretende alcançar
através do bem-estar econômico e da satisfação
hedonista.
51. As novas gerações
são as mais afetadas por esta cultura do consumo
em suas aspirações pessoais profundas.
Crescem na lógica do individualismo pragmático
e narcisista, que desperta nelas mundos imaginários
especiais de liberdade e igualdade. Afirmam o presente
porque o passado perdeu relevância diante de tantas
exclusões sociais, políticas e econômicas.
Para eles o futuro é incerto. Assim mesmo, participam
da lógica da vida como espetáculo, considerando
o corpo como ponto de referência de sua realidade
presente. Têm um novo vício pelas sensações
e crescem em uma grande maioria sem referência
aos valores e instâncias religiosas. Em meio à
realidade de mudança cultural emergem novos sujeitos,
com novos estilos de vida, maneiras de pensar, de sentir,
de perceber e com novas formas de se relacionar. São
produtores e atores da nova cultura.
52. Entre os aspectos
positivos desta mudança cultural aparece o valor
fundamental da pessoa, de sua consciência e experiência,
a busca do sentido da vida e da transcendência.
Para dar respostas à busca mais profunda do significado
da vida, o fracasso das ideologias dominantes, permitiu
que a simplicidade e o reconhecimento do fraco e do
pequeno na existência surgissem como valor, com
uma grande capacidade e potencial que não podem
ser desvalorizados. Esta ênfase na apreciação
da pessoa abre novos horizontes, onde a tradição
cristã adquire um renovado valor, sobretudo quando
a pessoa se reconhece no Verbo encarnado que nasce em
um estábulo e assume uma condição
humilde, de pobre.
53. A necessidade
de construir o próprio destino e o desejo de
encontrar razões para a existência podem
colocar em movimento o desejo de se encontrar com outros
e compartilhar o vivido, como uma maneira de se dar
uma resposta. Trata-se de uma afirmação
da liberdade pessoal e, por isso, da necessidade de
se questionar em profundidade as próprias convicções
e opções.
54. Porém,
junto com a ênfase na responsabilidade individual
em meio a sociedades que promovem o acesso aos bens
através dos meios. Paradoxalmente, nega-se às
grandes maiorias o acesso aos mesmos bens, que constituem
elementos básicos e essenciais para viverem como
pessoas.
55. A ênfase
na experiência pessoal e no vivencial nos leva
a considerar o testemunho como um componente chave na
vivência da fé. Os fatos são valorizados
quando são significativos para a pessoa. Na linguagem
testemunhal podemos encontrar um ponto de contato com
as pessoas que compõem a sociedade e delas entre
si.
56. Por outro lado,
a riqueza e a diversidade cultural dos povos da América
Latina e do Caribe parecem evidentes. Existem em nossa
região diversas culturas indígenas, afro
americanas, mestiças, camponesas, urbanas e suburbanas.
As culturas indígenas se caracterizam sobretudo
por seu apego profundo à terra, pela vida comunitária
e por uma certa procura de Deus Os afro-americanos se
caracterizam, entre outros elementos, pela expressividade
corporal, o enraizamento familiar e o sentido de Deus.
A cultura camponesa está referida ao ciclo agrário.
A cultura mestiça, que é a mais extensa
entre muitos povos da região, tem buscado em
meios às contradições sintetizar
ao longo da história estas múltiplas fontes
culturais originárias, facilitando o diálogo
das respectivas cosmovisões e permitindo sua
convergência em uma história compartilhada.
A esta complexidade cultural haveria que se acrescentar
também a de tantos imigrantes europeus que se
estabeleceram nos países de nossa região.
57. Estas culturas
coexistem em condições desiguais com a
chamada cultura globalizada. Elas exigem reconhecimento
e oferecem valores que constituem uma resposta aos anti-valores
da cultura e que se impõem através dos
meios de comunicação de massas: comunitarismo,
valorização da família, abertura
à transcendência e solidariedade. Estas
culturas são dinâmicas e estão em
interação permanente entre si e com as
diferentes propostas culturais.
58. A cultura urbana
é híbrida, dinâmica e mutável,
pois amálgama múltiplas formas, valores
e estilos de vida e afeta todas as coletividades. A
cultura suburbana é fruto de grandes migrações
de população, em sua maioria pobre, que
se estabeleceu ao redor das cidades nos cinturões
de miséria. Nestas culturas os problemas de identidade
e pertença, relação, espaço
vital e lar são cada vez mais complexos.
59. Existem também
comunidades de migrantes que deixaram as culturas e
tradições trazidas de suas terras de origem,
sejam cristãs ou de outras religiões.
Por sua vez, esta diversidade inclui comunidades que
foram se formando com a chegada de diferentes denominações
cristãs e outros grupos religiosos. Assim, assumir
a diversidade cultural, que é um imperativo do
momento, envolve superar os discursos que pretendem
uniformizar a cultura, com enfoques baseados em modelos
únicos.
2.1.2 Situação
econômica
60. O Papa , em seu
Discurso Inaugural, vê a globalização
como um fenômeno “de relações
de nível planetário”, considerando-o
“uma conquista da família humana”,
porque favorece o acesso a novas tecnologias, mercados
e finanças. As altas taxas de crescimento de
nossa economia regional e, particularmente, seu desenvolvimento
urbano, não seriam possíveis sem a abertura
ao comércio internacional, sem acesso às
tecnologias de última geração,
sem a participação de nossos cientistas
e técnicos no desenvolvimento internacional do
conhecimento e sem o alto investimento registrado nos
meio eletrônicos de comunicação.
Tudo isso leva também consigo o surgimento de
uma classe média tecnologicamente letrada. Ao
mesmo tempo a globalização se manifesta
como a profunda aspiração do gênero
humano à unidade. Não obstante estes avanços,
o Papa também assinala que a globalização
“comporta o risco dos grandes monopólios
e de converter o lucro em valor supremo”. Por
isso, Bento XVI enfatiza que “como em todos os
campos da atividade humana, a globalização
deve se reger também pela ética, colocando
tudo a serviço da pessoa humana, criada a imagem
e semelhança de Deus”25.
61. A globalização
é um fenômeno complexo que possui diversas
dimensões (econômicas, políticas,
culturais, comunicacionais, etc). Para sua justa valorização,
é necessária uma compreensão analítica
e diferenciada que permita detectar tanto seus aspectos
positivos quanto os negativos. Lamentavelmente, a face
mais difundida e de êxito da globalização
é sua dimensão econômica, que se
sobrepõe e condiciona as outras dimensões
da vida humana. Na globalização, a dinâmica
do mercado absolutiza com facilidade a eficácia
e a produtividade como valores reguladores de todas
as relações humanas. Este peculiar caráter
faz da globalização um processo promotor
de iniqüidades e injustiças múltiplas.
A globalização, tal como está configurada
atualmente, não é capaz de interpretar
e reagir em função de valores objetivos
que se encontram além do mercado e que constituem
o mais importante da vida humana: a verdade, a justiça,
o amor, e muito especialmente, a dignidade e os direitos
de todos, inclusive daqueles que vivem à margem
do próprio mercado.
62. Conduzida por
uma tendência que privilegia o lucro e estimula
a competitividade, a globalização segue
uma dinâmica de concentração de
poder e de riqueza em mãos de poucos. Concentração
não só dos recursos físicos e monetários,
mas sobretudo de informação e dos recursos
humanos, o que produz a exclusão de todos aqueles
não suficientemente capacitados e informados,
aumentando as desigualdades que marcam tristemente nosso
continente e que mantêm na pobreza uma multidão
de pessoas. O que existe hoje é a pobreza de
conhecimento e do uso e acesso a novas tecnologias.
Por isso é necessário que os empresários
assumam sua responsabilidade de criar mais fontes de
trabalho e de investir na superação desta
nova pobreza.
63. Porém,
está claro que o predomínio desta tendência
não têm eliminado a possibilidade de se
formar pequenas e médias empresas. Elas se associam
ao dinamismo exportador da economia, prestam-lhe serviços
colaterais ou aproveitam nichos específicos do
mercado interno. No entanto, sua fragilidade econômica
e financeira e a pequena escala em que se desenvolvem,
tornam-nas extremamente vulneráveis frente às
taxas de juros, ao risco do câmbio, aos custos
previsionais e a variação nos preços
de seus insumos. A debilidade destas empresas se associa
à precariedade do emprego que estão em
condições de oferecer. Sem uma política
de proteção específica dos estados
a elas, corre-se o risco de que as economias dos grandes
consórcios termine por se impor como a única
forma determinante do dinamismo econômico.
64. Por isso, frente
a esta forma de globalização, sentimos
um forte chamado para promover uma globalização
diferente, que esteja marcada pela solidariedade, pela
justiça e pelo respeito aos direitos humanos,
fazendo da América Latina e do Caribe não
só o Continente da esperança, mas também
o Continente do amor, como propôs SS. Bento XVI
no Discurso Inaugural desta Conferência.
65. Isto deveria nos
levar a contemplar os rostos daqueles que sofrem. Entre
eles estão as comunidades indígenas e
afro-americanas que, em muitas ocasiões, não
são tratadas com dignidade e igualdade de condições;
muitas mulheres são excluídas, em razão
de seu sexo, raça ou situação sócio-econômica;
jovens que recebem uma educação de baixa
qualidade e não têm oportunidades de progredir
em seus estudos nem de entrar no mercado de trabalho
para se desenvolver e constituir uma família;
muitos pobres, desempregados, migrantes, deslocados,
agricultores sem terra, aqueles que procuram sobreviver
na economia informal; meninos e meninas submetidos à
prostituição infantil ligada muitas vezes
ao turismo sexual; também as crianças
vítimas do aborto. Milhões de pessoas
e famílias vivem na miséria e inclusive
passam fome. Preocupam-nos também os dependentes
das drogas, as pessoas com limitações
físicas, os portadores e vítimas de enfermidades
graves como a malária, a tuberculose e HIV –
AIDS, que sofrem a solidão e se vêem excluídos
da convivência familiar e social. Não nos
esqueçamos também dos seqüestrados
e aqueles que são vítimas da violência,
do terrorismo, de conflitos armados e da insegurança
na cidade. Também os anciãos que, além
de se sentirem excluídos do sistema produtivo,
vêem-se muitas vezes recusados por sua família
como pessoas incômodas e inúteis. Sentimos
as dores, enfim, da situação desumana
em que vive a grande maioria dos presos, que também
necessitam de nossa presença solidária
e de nossa ajuda fraterna. Uma globalização
sem solidariedade afeta negativamente os setores mais
pobres. Já não se trata simplesmente do
fenômeno da exploração e opressão,
mas de algo novo: da exclusão social. Com ela
o pertencimento à sociedade na qual se vive fica
afetado, pois já não se está abaixo,
na periferia ou sem poder, mas se está de fora.
Os excluídos não são somente “explorados”,
mas “supérfluos” e “descartáveis”.
66. As instituições
financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem
ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo,
debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes
para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço
de suas populações, especialmente quando
se trata de investimentos de longo prazo e sem retorno
imediato. As indústrias extrativistas internacionais
e a agroindústria, muitas vezes, não respeitam
os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais
das populações locais e não assumem
suas responsabilidades. Com muita freqüência,
se subordina a preservação da natureza
ao desenvolvimento econômico, com danos á
biodiversidade, com o esgotamento das reservas de água
e de outros recursos naturais, com a contaminação
do ar e a mudança climática. As possibilidades
e eventuais problemas da produção de agrocombustíveis
devem ser estudadas, de tal maneira que prevaleça
o valor da pessoa humana e de suas necessidades de sobrevivência.
A América Latina possui os aqüíferos
mais abundantes do planeta, junto com grandes extensões
de território selvagem, que são pulmões
da humanidade. Assim se dão gratuitamente ao
mundo serviços ambientais que não são
reconhecidos economicamente. A região se vê
afetada pelo aquecimento da terra e a mudança
climática provocada principalmente pelo estilo
de vida não sustentável dos países
industrializados.
67. A globalização
tem celebrado freqüentes Tratados de Livre Comércio
entre países com economias assimétricas,
que nem sempre beneficiam os países mais pobres,
ao mesmo tempo, pressiona-se os países da região
com exigências desmedidas em matéria de
propriedade intelectual, a tal ponto que se permitem
direitos de patente sobre a vida em todas as suas formas.
Além disso, a utilização de organismos
geneticamente manipulados tem mostrado o que nem sempre
a globalização contribui para o combate
contra a fome, nem para o desenvolvimento rural sustentável.
68. Ainda que se tenha
progredido muitíssimo no controle da inflação
e na estabilidade macro-econômica dos países
da região, muitos governos se encontram severamente
limitados para o financiamento de seu orçamento
público pelos elevados serviços da dívida
externa26 e interna
e que, por outro lado, não contam com sistemas
tributários verdadeiramente eficientes, progressivos
e eqüitativos.
69. A atual concentração
de renda e riqueza acontece principalmente pelos mecanismos
do sistema financeiro. A liberdade concedida aos investimentos
financeiros favorecem o capital especulativo, que não
tem incentivos para fazer investimentos produtivos de
longo prazo, mas busca o lucro imediato nos negócios
com títulos públicos, moedas e derivados.
No entanto, segundo a Doutrina Social da Igreja, “o
objeto da economia é a formação
da riqueza e seu incremento progressivo, em termos não
só quantitativos, mas qualitativos: tudo é
moralmente correto se está orientado para o desenvolvimento
global e solidário do homem e da sociedade na
qual vive e trabalha. O desenvolvimento, na verdade,
não pode se reduzir a um mero processo de acumulação
de bens e de serviços. Ao contrário, a
pura acumulação, ainda que para o bem
comum, não é uma condição
suficiente para a realização de uma autêntica
felicidade humana”27.
A empresa é chamada a prestar uma contribuição
maior na sociedade, assumindo a chamada responsabilidade
social-empresarial, a partir dessa perspectiva.
70. É também
alarmante o nível de corrupção
nas economias envolvendo tanto o setor público
quanto o setor privado, ao que se soma uma notável
falta de transparência e prestação
de contas à cidadania. Em muitas ocasiões,
a corrupção está vinculada ao flagelo
do narcotráfico ou do narconegócio, e
por outro lado, vem destruindo o tecido social e econômico
em regiões inteiras.
71. A população
economicamente ativa da região é afetada
pelo subemprego (42%) e o desemprego (9%), e quase a
metade está empregada no trabalho informal. O
trabalho formal, por sua vez, vê-se submetido
à precariedade das condições de
emprego e à pressão constante da subcontratação,
que traz consigo salários mais baixos e falta
de proteção na área da segurança
social, não permitindo a muitos o desenvolvimento
de uma vida digna. Neste contexto, os sindicatos perdem
a possibilidade de defender os direitos dos trabalhadores.
Por outro lado, é possível destacar fenômenos
positivos e criativos para enfrentar esta situação
por parte dos afetados, que vêm estimulando diversas
experiências, como por exemplo, micro-finanças,
economia local e solidária e comércio
justo.
72. Os homens do campo,
em sua maioria, sofrem por causa da pobreza, agravada
por não terem acesso à terra própria.
No entanto, existem grandes latifúndios em mãos
de poucos. Em alguns países, esta situação
tem levado a população a exigir uma Reforma
Agrária, estando atentos aos males que podem
lhes ocasionar os Tratados de Livre Comércio,
a manipulação de drogas e outros fatores.
73. Um dos fenômenos
mais importantes em nossos países é o
processo de mobilidade humana, em sua dupla expressão
de migração e de itinerância em
que milhões de pessoas migram ou se vêem
forçadas a migrar dentro e fora de seus respectivos
países. As causas são diversas e estão
relacionadas com a situação econômica,
a violência em suas diversas formas, a pobreza
que afeta as pessoas e a falta de oportunidades para
a pesquisa e o desenvolvimento profissional. Em muitos
casos as conseqüência são de enorme
gravidade em nível pessoal, familiar e cultural.
A perda do capital humano de milhões de pessoas,
de profissionais qualificados, de pesquisadores e amplos
setores d agricultura, vai nos empobrecendo cada vez
mais. A exploração do trabalho chega,
em alguns casos, a gerar condições de
verdadeira escravidão. Acontece também
um vergonhoso tráfico de pessoas, que inclui
a prostituição, inclusive de menores.
Merece especial menção a situação
dos refugiados, que questiona a capacidade de acolhida
da sociedade e das igrejas. Por outro lado, no entanto,
a remessa de divisas dos emigrados a seus países
de origem tem se tornado uma importante e, às
vezes, insubstituível fonte de recursos para
diversos países da região, ajudando o
bem-estar e à mobilidade social ascendente daqueles
que conseguem participar com êxito neste processo.
2.1.3 Dimensão sócio-política
74. Constatamos um
certo progresso democrático que se demonstra
em diversos processos eleitorais. No entanto, vemos
com preocupação o acelerado avanço
de diversas formas de regressão autoritária
por via democrática que, em certas ocasiões,
resultam em regimes de corte neo-populista. Isto indica
que não basta uma democracia puramente formal,
fundada em procedimentos eleitorais honestos, mas que
é necessário uma democracia participativa
e baseada na promoção e respeito dos direitos
humanos. Uma democracia sem valores como os mencionados
torna-se facilmente uma ditadura e termina traindo o
próprio povo.
75. Com a presença
da Sociedade Civil assumindo uma atitude mais protagonista
e a irrupção de novos atores sociais como
são os indígenas, os afro-americanos,
as mulheres, os profissionais, uma extensa classe média
e os setores marginalizados organizados, está
se fortalecendo a democracia participativa e estão
se criando maiores espaços de participação
política. Estes grupos estão tomando consciência
do poder que têm em suas mãos e da possibilidade
de gerarem mudanças importantes para a conquista
de políticas públicas mais justas, que
revertam sua situação de exclusão.
Neste plano, percebe-se também uma crescente
influência de organismos das nações
unidas e de Organizações Não-Governamentais
de caráter internacional que nem sempre ajustam
suas recomendações a critérios
éticos. Não faltam também atuações
que radicalizam as posições, fomentam
a conflitividade e a polarização extremas
e colocam esse potencial a serviço de interesses
alheios aos seus, o que, ao final, pode frustrar e reverter
negativamente suas esperanças.
76. Depois de uma
época de debilidade dos Estados devido a aplicação
de ajustes estruturais na economia, por recomendação
de organismos financeiros internacionais, olha-se, atualmente,
com bons olhos um esforço por parte dos Estados
em definir e aplicar políticas públicas
nos campos da saúde, educação,
segurança alimentar, previdência social,
acesso à terra e à moradia, promoção
eficaz da economia para a criação de empregos
e leis que favorecem as organizações solidárias.
Tudo isto mostra que não pode existir democracia
verdadeira e estável sem justiça social,
sem divisão real de poderes e sem a vigência
do Estado de direito28.
77. Cabe assinalar
como um grande fator negativo, o recrudescimento da
corrupção na sociedade e no Estado em
boa parte da região, envolvendo os poderes legislativos
e executivo em todos os seus níveis, alcançando
também o sistema judicial que, muitas vezes,
inclina seu juízo a favor dos poderosos e gera
impunidade, o que coloca em sério risco a credibilidade
das instituições públicas e aumenta
a desconfiança do povo, fenômeno que se
une a um profundo desprezo pela legalidade. Em amplos
setores da população e especialmente entre
os jovens cresce o desencanto pela política e
particularmente pela democracia, pois as promessas de
uma vida melhor e mais justa não se cumpriram
ou se cumpriram só pela metade. Neste sentido,
esquece-se de que a democracia e a participação
política são fruto da formação
que se faz realidade somente quando os cidadãos
são conscientes de seus direitos fundamentais
e de seus deveres correspondentes.
78. A vida social
em convivência harmônica e pacífica
está se deteriorando gravemente em muitos países
da América Latina e do Caribe pelo crescimento
da violência, que se manifesta em roubos, assaltos,
seqüestros, e o que é mais grave, em assassinatos
que a cada dia destroem mais vidas humanas e enchem
de dor as famílias e a sociedade inteira. A violência
se reveste de várias formas e tem diversos agentes:
o crime organizado e o narcotráfico, grupos paramilitares,
violência comum sobretudo na periferia das grandes
cidades, violência de grupos de jovens e crescente
violência intra-familiar. Suas causas são
múltiplas: a idolatria do dinheiro, o avanço
de uma ideologia individualista e utilitarista, a falta
de respeito pela dignidade de cada pessoa, a deterioração
do tecido social, a corrupção inclusive
nas forças de ordem e a falta de políticas
públicas de equidade social.
79. Alguns parlamentos
ou assembléias legislativas aprovam leis injustas
contra os direitos humanos e a vontade popular, precisamente
por não estar perto de seus representados, nem
saber escutar e dialogar com os cidadãos, mas
também por ignorância, por falta de acompanhamento
e porque muitos cidadãos abdicam de seu dever
de participar na vida pública.
80. Em alguns países
tem aumentado a repressão, a violência
dos direitos humanos, inclusive o direito à liberdade
religiosa, a liberdade de expressão e a liberdade
de ensino, assim como o desprezo à objeção
de consciência.
81. Ainda que alguns
países tenham conseguido acordos de paz superando
dessa forma conflitos antigos, em outros, continua a
luta armada com todas as suas seqüelas (mortes
violentas, violações dos Direitos Humanos,
ameaças, crianças na guerra, seqüestros,
etc.), sem que se possa observar soluções
em curto prazo. A influência do narco-negócio
nestes grupos dificulta ainda mais as possíveis
soluções.
82. Na América
Latina e no Caribe vê-se com bons olhos uma crescente
vontade de integração regional com acordos
multilaterais, envolvendo um número crescente
de países que geram suas próprias regras
no campo do comércio, dos serviços e das
patentes. À origem comum unem-se a cultura, a
língua e a religião que podem contribuir
para que a integração não seja
só de mercados, mas de instituições
civis e de pessoas. Também é positiva
a globalização da justiça, no campo
dos direitos humanos e dos crimes contra a humanidade
que permitirá a todos viver progressivamente
sob normas iguais chamadas a proteger sua dignidade,
sua integridade e sua vida.
2.1.4 Biodiversidade, ecologia,
Amazônia e Antártida
83. A América
Latina é o Continente que possui uma das maiores
biodiversidades do planeta e uma rica sócio diversidade
representada por seus povos e culturas. Estes possuem
um grande acervo de conhecimentos tradicionais sobre
a utilização dos recursos naturais, assim
como sobre o valor medicinal de plantas e outros organismos
vivos, muitos dos quais formam a base de sua economia.
Tais conhecimentos são atualmente objeto de apropriação
intelectual ilícita, sendo patenteados por indústrias
farmacêuticas e de biogenética, gerando
vulnerabilidade dos agricultores e suas famílias
que dependem desses recursos para sua sobrevivência.
84. Nas decisões
sobre as riquezas da biodiversidade e da natureza as
populações tradicionais têm sido
praticamente excluídas. A natureza foi e continua
sendo agredida. A terra foi depredada. As águas
estão sendo tratadas como se fossem uma mercadoria
negociável pelas empresas, além de haver
sido transformadas em um bem disputado pelas grandes
potências. Um exemplo muito importante nesta situação
é a Amazônia29.
85. Em seu discurso
aos jovens, no Estádio do Pacaembu, em São
Paulo, o Papa Bento XVI chamou a atenção
sobre a “devastação ambiental da
Amazônia e as ameaças à dignidade
humana de seus povos”30
e pediu aos jovens “um maior compromisso nos mais
diversos espaços de ação31”.
86. A crescente agressão
ao meio-ambiente pode servir de pretexto para propostas
de internacionalização da Amazônia,
que só servem aos interesses econômicos
das corporações internacionais. A sociedade
panamazõnica é pluriétnica, pluricultural
e plurireligiosa. Nela, está-se intensificando,
cada vez mais, a disputa pela ocupação
do território. As populações tradicionais
da região querem que seus territórios
sejam reconhecidos e legalizados.
87. Além disso,
constatamos o retrocesso das geleiras em todo o mundo:
o degelo do Ártico cujo impacto já está
se vendo na flora e fauna desse ecossistema; também
o aquecimento global se faz sentir no estrondoso crepitar
dos blocos de gelo ártico que reduzem a cobertura
glacial do Continente e que regula o clima do mundo.
Profeticamente, há 20 anos, desde a fronteira
das Américas, João Paulo II assinalou:
“Desde o Cone Sul do Continente Americano e frente
aos ilimitados espaços da Antártida, lanço
um chamado a todos os responsáveis de nosso planeta
para proteger e conservar a natureza criada por Deus:
não permitamos que nosso mundo seja uma terra
cada vez mais degradada e degradante”32.
2.1.5 Presença dos povos
indígenas e afro-americanos na Igreja
88. Os indígenas
constituem a população mais antiga do
Continente. Estão na raiz primeira da identidade
latino-americana e caribenha. Os afro-americanos constituem
outra raiz que foi arrancada da África e trazida
para cá como gente escravizada. A terceira raiz
é a população pobre que migrou
da Europa a partir do século XVI, em busca de
melhores condições de vida e o grande
fluxo de imigrantes de todo o mundo a partir de meados
do século XIX. De todos estes grupos e de suas
correspondentes culturas se formou a mestiçagem
que é a base social e cultural de nossos povos
latino-americanos e caribenhos, como já o reconheceu
a III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano
celebrada em Puebla, México33.
89. Os indígenas
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