Introdução
1. « SPE
SALVI facti sumus » – é na esperança
que fomos salvos: diz São Paulo aos Romanos e
a nós também (Rm 8,24). A « redenção
», a salvação, segundo a fé
cristã, não é um simples dado de
fato. A redenção é-nos oferecida
no sentido que nos foi dada a esperança, uma
esperança fidedigna, graças à qual
podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente,
ainda que custoso, pode ser vivido e aceito, se levar
a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se
esta meta for tão grande que justifique a canseira
do caminho. E imediatamente se levanta a questão:
mas de que gênero é uma tal esperança
para poder justificar a afirmação segundo
a qual a partir dela, e simplesmente porque ela existe,
nós fomos redimidos? E de que tipo de certeza
se trata?
A fé é esperança
2. Antes de nos debruçarmos
sobre estas questões, hoje particularmente sentidas,
devemos escutar com um pouco mais de atenção
o testemunho da Bíblia sobre a esperança.
Esta é, de fato, uma palavra central da fé
bíblica, a ponto de, em várias passagens,
ser possível intercambiar os termos « fé
» e « esperança ». Assim, a
Carta aos Hebreus liga estreitamente a « plenitude
da fé » (10,22) com a « imutável
profissão da esperança » (10,23).
De igual modo, quando a Primeira Carta de Pedro exorta
os cristãos a estarem sempre prontos a responder
a propósito do logos – o sentido e a razão
– da sua esperança (3,15), « esperança
» equivale a « fé ». Quão
determinante se revelasse para a consciência dos
primeiros cristãos o fato de terem recebido o
dom de uma esperança fidedigna, manifesta-se
também nos textos onde se compara a existência
cristã com a vida anterior à fé
ou com a situação dos adeptos de outras
religiões.
Paulo lembra aos Efésios que,
antes do seu encontro com Cristo, estavam « sem
esperança e sem Deus no mundo » (Ef 2,12).
Naturalmente, ele sabe que eles tinham seguido deuses,
que tiveram uma religião, mas os seus deuses
revelaram-se discutíveis e, dos seus mitos contraditórios,
não emanava qualquer esperança. Apesar
de terem deuses, estavam « sem Deus » e,
conseqüentemente, achavam-se num mundo tenebroso,
perante um futuro obscuro. « In nihil ab nihilo
quam cito recidimus » (No nada, do nada,
quão cedo recaímos) [1]
diz um epitáfio daquela época; palavras
nas quais aparece, sem rodeios, aquilo a que Paulo alude.
Ao mesmo tempo, diz aos Tessalonicenses: não
deveis « entristecer-vos como os outros que não
têm esperança » (1 Ts 4,13).
Aparece aqui também como elemento
distintivo dos cristãos o fato de estes terem
um futuro: não é que conheçam em
detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais
que a sua vida não acaba no vazio. Somente quando
o futuro é certo como realidade positiva, é
que se torna vivível também o presente.
Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo não
era apenas uma «boa nova », ou seja, uma
comunicação de conteúdos até
então ignorados. Em linguagem atual, dir-se-ia:
a mensagem cristã não era só «
informativa », mas «performativa ».
Significa isto que o Evangelho não é apenas
uma comunicação de realidades que se podem
saber, mas uma comunicação que gera fatos
e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro,
foi aberta de par em par. Quem tem esperança,
vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.
3. Porém, agora
coloca-se a questão: em que consiste esta esperança
que, enquanto esperança, é « redenção
»? Pois bem, o núcleo da resposta encontra-se
no trecho da Carta aos Efésios já citado:
os Efésios, antes do encontro com Cristo, estavam
sem esperança, porque estavam « sem Deus
no mundo ». Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro
Deus: isto significa receber esperança. A nós,
que desde sempre convivemos com o conceito cristão
de Deus e a ele nos habituamos, a posse duma tal esperança
que provém do encontro real com este Deus quase
nos passa despercebida. O exemplo de uma santa da nossa
época pode, de certo modo, ajudar-nos a entender
o que significa encontrar pela primeira vez e realmente
este Deus. Refiro-me a Josefina Bakhita, uma africana
canonizada pelo Papa João Paulo II.
Nascera por volta de 1869 –
ela mesma não sabia a data precisa – no
Darfur, Sudão. Aos nove anos de idade foi raptada
pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente
e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão.
Por último, acabou escrava ao serviço
da mãe e da esposa de um general, onde era diariamente
seviciada até ao sangue; resultado disso mesmo
foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a
vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante
italiano para o cônsul Callisto Legnani que, ante
a avançada dos mahdistas, voltou para a Itália.
Aqui, depois de « patrões » tão
terríveis que a tiveram como sua propriedade
até agora, Bakhita acabou por conhecer um «
patrão » totalmente diferente – no
dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava
« paron » ao Deus vivo, ao Deus de Jesus
Cristo. Até então só tinha conhecido
patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na
melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava
útil. Mas agora ouvia dizer que existe um «
paron » acima de todos os patrões, o Senhor
de todos os senhores, e que este Senhor é bom,
a bondade em pessoa.
Soube que este Senhor também
a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também
ela era amada, e precisamente pelo « Paron »
supremo, diante do qual todos os outros patrões
não passam de miseráveis servos. Ela era
conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão
tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado
e agora estava à espera dela « à
direita de Deus Pai ». Agora ela tinha «
esperança »; já não aquela
pequena esperança de achar patrões menos
cruéis, mas a grande esperança: eu sou
definitivamente amada e aconteça o que acontecer,
eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é
boa. Mediante o conhecimento desta esperança,
ela estava « redimida », já não
se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia
aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios
que, antes, estavam sem esperança e sem Deus
no mundo: sem esperança porque sem Deus. Por
isso, quando quiseram levá-la de novo para o
Sudão, Bakhita negou-se; não estava disposta
a deixar-se separar novamente do seu « Paron ».
A 9 de Janeiro de 1890, foi batizada
e crismada e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos
do Patriarca de Veneza. A 8 de Dezembro de 1896, em
Verona, pronunciou os votos na Congregação
das Irmãs Canossianas e desde então, a
par dos serviços na sacristia e na portaria do
convento, em várias viagens pela Itália
procurou sobretudo incitar à missão: a
libertação recebida através do
encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia
estendê-la, tinha de ser dada também a
outros, ao maior número possível de pessoas.
A esperança, que nascera para ela e a «
redimira », não podia guardá-la
para si; esta esperança devia chegar a muitos,
chegar a todos.
O conceito de esperança
baseada sobre a fé no Novo Testamento e na Igreja
primitiva
4. Antes de enfrentar
a questão de saber se também para nós
o encontro com aquele Deus que, em Cristo, nos mostrou
a sua Face e abriu o seu Coração poderá
ser «performativo » e não somente
« informativo », ou seja, se poderá
transformar a nossa vida a ponto de nos fazer sentir
redimidos através da esperança que o mesmo
exprime, voltemos de novo à Igreja primitiva.
Não é difícil notar como a experiência
da humilde escrava africana Bakhita foi também
a experiência de muitas pessoas maltratadas e
condenadas à escravidão no tempo do cristianismo
nascente. O cristianismo não tinha trazido uma
mensagem sócio-revolucionária semelhante
à de Espártaco que tinha fracassado após
lutas cruentas. Jesus não era Espártaco,
não era um guerreiro em luta por uma libertação
política, como Barrabás ou Bar-Kochba.
Aquilo que Jesus – Ele mesmo
morto na cruz – tinha trazido era algo de totalmente
distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores,
o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro
com uma esperança que era mais forte do que os
sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava
a partir de dentro a vida e o mundo. A novidade do que
tinha acontecido revela-se, com a máxima evidência,
na Carta de São Paulo a Filémon. Trata-se
de uma carta, muito pessoal, que Paulo escreve no cárcere
e entrega ao escravo fugitivo Onésimo para o
seu patrão – precisamente Filémon.
É verdade, Paulo envia de novo o escravo para
o seu patrão, de quem tinha fugido, e fá-lo
não impondo, mas suplicando: « Venho pedir-te
por Onésimo, meu filho, que gerei na prisão
[...]. De novo te enviei e tu torna a recebê-lo,
como às minhas entranhas [...]. Talvez ele se
tenha apartado de ti por algum tempo, para que tu o
recobrasses para sempre, não já como escravo,
mas, em vez de escravo, como irmão muito amado
» (Flm 10-16).
Os homens que, segundo o próprio
estado civil, se relacionam entre si como patrões
e escravos, quando se tornaram membros da única
Igreja passaram as ser entre si irmãos e irmãs
– assim se tratavam os cristãos mutuamente.
Em virtude do Batismo, tinham sido regenerados, tinham
bebido do mesmo Espírito e recebiam conjuntamente,
um ao lado do outro, o Corpo do Senhor. Apesar de as
estruturas externas permanecerem as mesmas, isto transformava
a sociedade a partir de dentro. Se a Carta aos Hebreus
diz que os cristãos não têm aqui
neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura
(cf. Heb 11, 13-14; Fil 3,20), isto não significa
de modo algum adiar para uma perspectiva futura: a sociedade
presente é reconhecida pelos cristãos
como uma sociedade imprópria; eles pertencem
a uma sociedade nova, rumo à qual caminham e
que, na sua peregrinação, é antecipada.
5. Devemos acrescentar
ainda um outro ponto de vista. A Primeira Carta aos
Coríntios (1,18-31) mostra-nos que uma grande
parte dos primeiros cristãos pertencia às
classes baixas da sociedade e, por isso mesmo, se sentia
livre para a experiência da nova esperança,
como constatamos no exemplo de Bakhita. Porém,
já desde os começos, havia também
conversões nas classes aristocráticas
e cultas, visto que também estas viviam «
sem esperança e sem Deus no mundo ». O
mito tinha perdido a sua credibilidade; a religião
romana de Estado tinha-se esclerosado em mero cerimonial,
que se realizava escrupulosamente, mas reduzido já
simplesmente a uma «religião política
». O racionalismo filosófico tinha relegado
os deuses para o campo do irreal. O Divino era visto
de variados modos nas forças cósmicas,
mas um Deus a quem se podia rezar não existia.
Paulo ilustra, de forma absolutamente
apropriada, a problemática essencial da religião
de então, quando contrapõe à vida
« segundo Cristo » uma vida sob o domínio
dos « elementos do mundo » (Col 2,8). Nesta
perspectiva, pode ser esclarecedor um texto de São
Gregório Nazianzeno. Diz ele que, no momento
em que os magos guiados pela estrela adoraram Cristo,
o novo rei, deu-se por encerrada a astrologia, pois
agora as estrelas giram segundo a órbita determinada
por Cristo [2].
De fato, nesta cena fica invertida a
concepção do mundo de então, que
hoje, de um modo distinto, aparece de novo florescente.
Não são os elementos
do cosmo, as leis da matéria que, no fim das
contas, governam o mundo e o homem, mas é um
Deus pessoal que governa as estrelas, ou seja, o universo;
as leis da matéria e da evolução
não são a última instância,
mas razão, vontade, amor: uma Pessoa. E se conhecemos
esta Pessoa e Ela nos conhece, então verdadeiramente
o poder inexorável dos elementos materiais deixa
de ser a última instância; deixamos de
ser escravos do universo e das suas leis, então
somos livres. Tal consciência impeliu na antiguidade
os ânimos sinceros a indagar. O céu não
está vazio. A vida não é um simples
produto das leis e da casualidade da matéria,
mas em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo há
uma vontade pessoal, há um Espírito que
em Jesus Se revelou como Amor.[3]
6. Os sarcófagos
dos primórdios do cristianismo ilustram visivelmente
esta concepção (com a morte diante dos
olhos a questão do significado da vida torna-se
inevitável). A figura de Cristo é interpretada,
nos antigos sarcófagos, sobretudo através
de duas imagens: a do filósofo e a do pastor.
Em geral, por filosofia não se entendia então
uma difícil disciplina acadêmica, tal como
ela se apresenta hoje. O filósofo era antes aquele
que sabia ensinar a arte essencial: a arte de ser retamente
homem, a arte de viver e de morrer.
Certamente, já há muito
tempo que os homens se tinham apercebido de que boa
parte dos que circulavam como filósofos, como
mestres de vida, não passavam de charlatães
que com suas palavras granjeavam dinheiro, enquanto
sobre a verdadeira vida nada tinham a dizer. Isto era
mais uma razão para se procurar o verdadeiro
filósofo que soubesse realmente indicar o itinerário
da vida. Quase ao fim do século terceiro, encontramos
pela primeira vez em Roma, no sarcófago de um
menino e no contexto da ressurreição de
Lázaro, a figura de Cristo como o verdadeiro
filósofo que, numa mão, segura o Evangelho
e, na outra, o bastão do viandante, próprio
do filósofo.
Com este bastão, Ele vence a
morte; o Evangelho traz a verdade que os filósofos
peregrinos tinham buscado em vão. Nesta imagem,
que sucessivamente por um longo período havia
de perdurar na arte dos sarcófagos, torna-se
evidente aquilo que tanto as pessoas cultas como as
simples encontravam em Cristo: Ele diz-nos quem é
na realidade o homem e o que ele deve fazer para ser
verdadeiramente homem. Ele indica-nos o caminho, e este
caminho é a verdade. Ele mesmo é simultaneamente
um e outra, sendo por isso também a vida de que
todos nós andamos à procura. Ele indica
ainda o caminho para além da morte; só
quem tem a possibilidade de fazer isto é um verdadeiro
mestre de vida.
O mesmo se torna visível na
imagem do pastor. Tal como sucedia com a representação
do filósofo, assim também na figura do
pastor a Igreja primitiva podia apelar-se a modelos
existentes da arte romana. Nesta, o pastor era, em geral,
expressão do sonho de uma vida serena e simples
de que as pessoas, na confusão da grande cidade,
sentiam saudade. Agora a imagem era lida no âmbito
de um novo cenário que lhe conferia um conteúdo
mais profundo: « O Senhor é meu pastor,
nada me falta [...] Mesmo que atravesse vales sombrios,
nenhum mal temerei, porque estais comigo » (Sal
23[22], 1.4). O verdadeiro pastor é Aquele que
conhece também o caminho que passa pelo vale
da morte; Aquele que, mesmo na estrada da derradeira
solidão, onde ninguém me pode acompanhar,
caminha comigo servindo-me de guia ao atravessá-la:
Ele mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da
morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a nós
agora e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele,
acha-se uma passagem. A certeza de que existe Aquele
que, mesmo na morte, me acompanha e com o seu «
bastão e o seu cajado me conforta », de
modo que « não devo temer nenhum mal »
(cf. Sal 23[22],4): esta era a nova « esperança
» que surgia na vida dos crentes.
7. Devemos voltar,
uma vez mais, ao Novo Testamento. No décimo primeiro
capítulo da Carta aos Hebreus (v. 1), encontra-se,
por assim dizer, uma certa definição da
fé que entrelaça estreitamente esta virtude
com a esperança. À volta da palavra central
desta frase começou a gerar-se desde a Reforma,
uma discussão entre os exegetas, mas que parece
hoje encaminhar-se para uma interpretação
comum. Por enquanto, deixo o termo em questão
sem traduzir. A frase soa, pois, assim: « A fé
é hypostasis das coisas que se esperam; prova
das coisas que não se vêem ». Para
os Padres e para os teólogos da Idade Média
era claro que a palavra grega hypostasis devia ser traduzida
em latim pelo termo substantia. De fato, a
tradução latina do texto, feita na Igreja
antiga, diz: « Est autem fides sperandarum
substantia rerum, argumentum non apparentium –
a fé é a “substância”
das coisas que se esperam; a prova das coisas que não
se vêem ».
Tomás de Aquino,[4]
servindo-se da terminologia da tradição
filosófica em que se encontra, explica: a fé
é um habitus, ou seja, uma predisposição
constante do espírito, em virtude do qual a vida
eterna tem início em nós e a razão
é levada a consentir naquilo que não vê.
Deste modo, o conceito de « substância »
é modificado para significar que pela fé,
de forma incoativa – poderíamos dizer «
em gérmen » e portanto segundo a «
substância » – já estão
presentes em nós as coisas que se esperam: a
totalidade, a vida verdadeira. E precisamente porque
a coisa em si já está presente, esta presença
daquilo que há-de vir cria também certeza:
esta «coisa » que deve vir ainda não
é visível no mundo externo (não
« aparece »), mas pelo fato de a trazermos,
como realidade incoativa e dinâmica dentro de
nós, surge já agora uma certa percepção
dela.
Para Lutero, que não nutria
muita simpatia pela Carta aos Hebreus em si própria,
o conceito de « substância », no contexto
da sua visão da fé, nada significava.
Por isso, interpretou o termo hipóstase/substância
não no sentido objetivo (de realidade presente
em nós), mas no subjetivo, isto é, como
expressão de uma atitude interior e, consequentemente,
teve naturalmente de entender também o termo
argumentum como uma disposição
do sujeito. No século XX, esta interpretação
impôs-se também na exegese católica
– pelo menos na Alemanha – de modo que a
tradução ecumênica em alemão
do Novo Testamento, aprovada pelos Bispos diz: «
Glaube aber ist: Feststehen in dem, was man erhofft,
Überzeugtsein von dem, was man nicht sieht
» (fé é: permanecer firmes naquilo
que se espera, estar convencidos daquilo que não
se vê). Em si mesmo, isto não está
errado; mas não é o sentido do texto,
porque o termo grego usado (elenchos) não
tem o valor subjetivo de « convicção
», mas o valor objetivo de « prova ».
Com razão, pois, a recente exegese
protestante chegou a uma convicção diversa:
« Agora, porém, já não restam
dúvidas de que esta interpretação
protestante, tida como clássica, é insustentável
».[5] A
fé não é só uma inclinação
da pessoa para realidades que hão-de vir, mas
estão ainda totalmente ausentes; ela dá-nos
algo. Dá-nos já agora algo da realidade
esperada, e esta realidade presente constitui para nós
uma « prova » das coisas que ainda não
se vêem. Ela atrai o futuro para dentro do presente,
de modo que aquele já não é o puro
« ainda-não ». O fato de este futuro
existir, muda o presente; o presente é tocado
pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se
naquelas presentes e as presentes nas futuras.
8. Esta explicação
fica ainda mais reforçada e aplicada à
vida concreta, se considerarmos o versículo 34
do décimo capítulo da Carta aos Hebreus
que, sob o aspecto da língua e do conteúdo,
tem a ver com esta definição de uma fé
perpassada de esperança e prepara-a. No texto,
o autor fala aos crentes que viveram a experiência
da perseguição, dizendo-lhes: «
Não só vos compadecestes dos encarcerados,
mas aceitastes com alegria a confiscação
dos vossos bens (hyparchonton – Vg: bonorum),
sabendo que possuís uma riqueza melhor (hyparxin
– Vg: substantiam) e imperecível
». Hyparchonta são as propriedades,
aquilo que na vida terrena constitui a sustentação,
precisamente a base, a « substância »
da qual se necessita para viver.
Esta « substância »,
a segurança normal para a vida, foi tirada dos
cristãos durante a perseguição.
Eles suportaram-no, porque em todo o caso consideravam
transcurável esta substância material.
Podiam prescindir dela, porque tinham achado uma «
base » melhor para a sua existência –
uma base que permanece e que ninguém lhes pode
tirar. Não é possível deixar de
ver a ligação existente entre estas duas
espécies de « substância »,
entre a sustentação ou base material e
a afirmação da fé como «
base », como « substância »
que permanece. A fé confere à vida uma
nova base, um novo fundamento, sobre o qual o homem
se pode apoiar, e conseqüentemente, o fundamento
habitual, ou seja a confiança na riqueza material,
relativiza-se.
Cria-se uma nova liberdade diante deste
fundamento da vida que só aparentemente é
capaz de sustentar, embora o seu significado normal
não seja certamente negado com isso. Esta nova
liberdade, a consciência da nova «substância»
que nos foi dada, ficou patente no martírio,
quando as pessoas se opuseram à prepotência
da ideologia e dos seus órgãos políticos
e, com a sua morte, renovaram o mundo. Mas não
é só no martírio... Aquela manifestou-se
sobretudo nas grandes renúncias a começar
dos monges da antiguidade até Francisco de Assis
e às pessoas do nosso tempo que, nos Institutos
e Movimentos religiosos atuais, deixaram tudo para levar
aos homens a fé e o amor de Cristo, para ajudar
as pessoas que sofrem no corpo e na alma.
Aqui a nova « substância
» confirmou-se realmente como «substância»:
da esperança destas pessoas tocadas por Cristo
brotou esperança para outros que viviam na escuridão
e sem esperança. Ficou demonstrado que esta nova
vida possui realmente « substância »
e é « substância » que suscita
vida para os outros. Para nós, que vemos tais
figuras, este seu atuar e viver é, de fato, uma
«prova » de que as coisas futuras, ou seja,
a promessa de Cristo não é uma realidade
apenas esperada, mas uma verdadeira presença:
Ele é realmente o « filósofo »
e o «pastor » que nos indica o que seja
e onde está a vida.
9. Para compreender
mais profundamente esta reflexão sobre as duas
espécies de substâncias - hypostasis
e hyparchonta – e sobre as duas maneiras
de viver que com elas se exprimem, devemos refletir
ainda brevemente sobre duas palavras referentes ao assunto,
que se encontram no décimo capítulo da
Carta aos Hebreus. Trata-se das palavras hypomone
(10,36) e hypostole (10,39). Hypomone
traduz-se normalmente por «paciência»,
perseverança, constância. Este saber esperar,
suportando pacientemente as provas, é necessário
para o crente poder « obter as coisas prometidas
» (cf. 10,36).
Na religiosidade do antigo judaísmo,
esta palavra era usada expressamente para a espera de
Deus, característica de Israel, para este perseverar
na fidelidade a Deus, na base da certeza da Aliança,
num mundo que contradiz a Deus. Sendo assim, a palavra
indica uma esperança vivida, uma vida baseada
na certeza da esperança. No Novo Testamento,
esta espera de Deus, este estar da parte de Deus assume
um novo significado: é que em Cristo, Deus manifestou-Se.
Comunicou-nos já a « substância »
das coisas futuras, e assim a espera de Deus adquire
uma nova certeza. É espera das coisas futuras
a partir de um dom já presente. É espera
– na presença de Cristo, isto é,
com Cristo presente – que se completa no seu Corpo,
na perspectiva da sua vinda definitiva.
Diversamente com hypostole,
exprime-se o esquivar-se de alguém que não
ousa dizer, abertamente e com franqueza, a verdade talvez
perigosa. Este dissimular por espírito de temor
diante dos homens, conduz à « perdição
» (Heb 10,39). Pois, « Deus não nos
deu um espírito de timidez, mas de fortaleza,
amor e sabedoria », lê-se na Segunda Carta
a Timóteo (1,7) caracterizando assim, com uma
bela expressão, a atitude fundamental do cristão.
A vida eterna – o que
é?
10. Até agora
estivemos a falar da fé e da esperança
no Novo Testamento e nos inícios do cristianismo,
mas deixando sempre claro que não se tratava
apenas do passado; toda a reflexão feita tem
a ver com a vida e a morte do homem em geral e, portanto,
interessa-nos também a nós, aqui e agora.
Chegou o momento, porém, de nos colocarmos explicitamente
a questão: para nós, hoje a fé
cristã é também uma esperança
que transforma e sustenta a nossa vida? Para nós
aquela é «performativa» – uma
mensagem que plasma de modo novo a mesma vida –
ou é simplesmente «informação»
que, entretanto, pusemos de lado porque nos parece superada
por informações mais recentes? Na busca
de uma resposta, desejo partir da forma clássica
do diálogo, usado no rito do Batismo, para exprimir
o acolhimento do recém-nascido na comunidade
dos crentes e o seu renascimento em Cristo. O sacerdote
perguntava, antes de mais nada, qual era o nome que
os pais tinham escolhido para a criança, e prosseguia:
« O que é que pedis à Igreja? ».
Resposta: « A fé ». « E o que
é que vos dá a fé? ». «
A vida eterna ».
Como vemos por este diálogo,
os pais pediam para a criança o acesso à
fé, a comunhão com os crentes, porque
viam na fé a chave para a «vida eterna
». Com efeito hoje, como sempre, é disto
que se trata no Batismo, quando nos tornamos cristãos:
é não somente um ato de socialização
no âmbito da comunidade, nem simplesmente de acolhimento
na Igreja. Os pais esperam algo mais para o batizando:
esperam que a fé – de que faz parte a corporeidade
da Igreja e dos seus sacramentos – lhe dê
a vida, a vida eterna. Fé é substância
da esperança. Aqui, porém, surge a pergunta:
Queremos nós realmente isto: viver eternamente?
Hoje, muitas pessoas rejeitam a fé, talvez simplesmente
porque a vida eterna não lhes parece uma coisa
desejável. Não querem de modo algum a
vida eterna, mas a presente; antes, a fé na vida
eterna parece, para tal fim, um obstáculo.
Continuar a viver eternamente –
sem fim – parece mais uma condenação
do que um dom. Certamente a morte queria-se adiá-la
o mais possível. Mas, viver sempre, sem um termo,
acabaria por ser fastidioso e, em última análise,
insuportável. É isto precisamente que
diz, por exemplo, o Padre da Igreja Ambrósio
na sua elegia pelo irmão defunto Sátiro:
« Sem dúvida, a morte não fazia
parte da natureza, mas tornou-se natural; porque Deus
não instituiu a morte ao princípio, mas
deu-a como remédio. Condenada pelo pecado a um
trabalho contínuo e a lamentações
insuportáveis, a vida dos homens começou
a ser miserável. Deus teve de pôr fim a
estes males, para que a morte restituísse o que
a vida tinha perdido. Com efeito, a imortalidade seria
mais penosa que benéfica, se não fosse
promovida pela graça ».[6]
Antes, Ambrósio tinha dito: « Não
devemos chorar a morte, que é a causa de salvação
universal »[7].
11. Independentemente
do que Santo Ambrósio quisesse dizer precisamente
com estas palavras, é certo que a eliminação
da morte ou mesmo o seu adiamento quase ilimitado, deixaria
a terra e a humanidade numa condição impossível
e nem mesmo prestaria um benefício ao indivíduo.
Obviamente há uma contradição na
nossa atitude, que evoca um conflito interior da nossa
mesma existência. Por um lado, não queremos
morrer; sobretudo quem nos ama não quer que morramos.
Mas, por outro, também não desejamos continuar
a existir ilimitadamente, nem a terra foi criada com
esta perspectiva. Então, o que é que queremos
na realidade?
Este paradoxo da nossa própria
conduta suscita uma questão mais profunda: o
que é, na verdade, a « vida »? E
o que significa realmente « eternidade »?
Há momentos em que de repente temos a sua percepção:
sim, isto seria precisamente a « vida »
verdadeira, assim deveria ser. Em comparação,
aquilo que no dia-a-dia chamamos « vida »,
na verdade não o é. Agostinho, na sua
extensa carta sobre a oração, dirigida
a Proba – uma viúva romana rica e mãe
de três cônsules –, escreve: no fundo,
queremos uma só coisa, « a vida bem-aventurada
», a vida que é simplesmente vida, pura
« felicidade ». No fim de contas, nada mais
pedimos na oração. Só para ela
caminhamos; só disto se trata.
Porém, depois Agostinho diz
também: se considerarmos melhor, no fundo não
sabemos realmente o que desejamos, o que propriamente
queremos. Não conhecemos de modo algum esta realidade;
mesmo naqueles momentos em que pensamos tocá-la,
não a alcançamos realmente. « Não
sabemos o que convém pedir » – confessa
ele citando São Paulo (Rm 8,26). Sabemos apenas
que não é isto. Porém, no fato
de não saber sabemos que esta realidade deve
existir. « Há em nós, por assim
dizer, uma douta ignorância » (docta
ignorantia) – escreve ele. Não sabemos
realmente o que queremos; não conhecemos esta
« vida verdadeira »; e, no entanto, sabemos
que deve existir algo que não conhecemos e para
isso nos sentimos impelidos.[8]
12. Penso que Agostinho
descreve aqui, de modo muito preciso e sempre válido,
a situação essencial do homem, uma situação
donde provêm todas as suas contradições
e as suas esperanças. De certo modo, desejamos
a própria vida, a vida verdadeira, que depois
não seja tocada sequer pela morte; mas, ao mesmo
tempo, não conhecemos aquilo para que nos sentimos
impelidos. Não podemos deixar de tender para
isto e, no entanto, sabemos que tudo quanto podemos
experimentar ou realizar não é aquilo
por que anelamos.
Esta « coisa » desconhecida
é a verdadeira «esperança »
que nos impele e o fato de nos ser desconhecida é,
ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como
também de todos os ímpetos positivos ou
destruidores para o mundo autêntico e o homem
verdadeiro. A palavra « vida eterna » procura
dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida.
Necessariamente é uma expressão insuficiente,
que cria confusão. Com efeito, « eterno
» suscita em nós a ideia do interminável,
e isto nos amedronta; « vida », faz-nos
pensar na existência por nós conhecida,
que amamos e não queremos perder, mas que, freqüentemente,
nos reserva mais canseiras que satisfações,
de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro
não a queremos.
A única possibilidade que temos
é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade
de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar
que a eternidade não seja uma sucessão
contínua de dias do calendário, mas algo
parecido com o instante repleto de satisfação,
onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos
a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano
do amor infinito, no qual o tempo – o antes e
o depois – já não existe. Podemos
somente procurar pensar que este instante é a
vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão
do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados
pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de
João: « Eu hei de ver-vos de novo; e o
vosso coração alegrar-se-á e ninguém
vos poderá tirar a vossa alegria » (16,22).
Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o
que visa a esperança cristã, o que esperamos
da fé, do nosso estar com Cristo.[9]
A esperança cristã
é individualista?
13. Ao longo da sua
história, os cristãos procuraram traduzir
este saber, que desconhece, em figuras ilustrativas,
explanando imagens do « céu » que
ficam sempre aquém daquilo que conhecemos precisamente
só por negação, através
de um não-conhecimento. Todas estas tentativas
de representação da esperança deram
a muitos, no decorrer dos séculos, a coragem
de viverem segundo a fé e, assim, abandonarem
inclusivamente os seus « hyparchonta
», os bens materiais para a sua existência.
O autor da Carta aos Hebreus, no décimo
primeiro capítulo, traçou, por assim dizer,
uma história daqueles que vivem na esperança
e da sua condição de caminhantes, uma
história que desde Abel chega até à
sua época. Contra este tipo de esperança
acendeu-se, na idade moderna, uma crítica sempre
mais dura: tratar-se-ia de puro individualismo, que
teria abandonado o mundo à sua miséria
indo refugiar-se numa salvação eterna
puramente privada. Henry de Lubac, na introdução
à sua obra fundamental « Catholicisme.
Aspects sociaux du dogme », recolheu algumas
vozes características deste tipo, uma das quais
merece ser citada: « Será que encontrei
a alegria? Não... Encontrei a minha alegria.
O que é algo terrivelmente diferente... A alegria
de Jesus pode ser individual. Pode pertencer a uma só
pessoa, e esta está salva. Está em paz...
agora e para sempre, mas ela só. Esta solidão
na alegria não a perturba. Pelo contrário:
ela sente-se precisamente a eleita! Na sua bem-aventurança,
atravessa as batalhas com uma rosa na mão ».[10]
14. A este respeito,
Henry de Lubac, baseando-se na teologia dos Padres em
toda a sua amplidão, pôde demonstrar que
a salvação foi sempre considerada como
uma realidade comunitária. A mesma Carta aos
Hebreus fala de uma « cidade » (cf. 11,10.16;
12,22; 13,14) e, portanto, de uma salvação
comunitária. Coerentemente, o pecado é
entendido pelos Padres como destruição
da unidade do gênero humano, como fragmentação
e divisão. Babel, o lugar da confusão
das línguas e da separação, apresenta-se
como expressão daquilo que é radicalmente
o pecado. Deste modo, a «redenção
» aparece precisamente como a restauração
da unidade, onde nos encontramos novamente juntos numa
união que se delínea na comunidade mundial
dos crentes.
Não é necessário
ocuparmo-nos aqui de todos os textos, onde transparece
o caráter comunitário da esperança.
Retomemos a Carta a Proba em que Agostinho tenta ilustrar
um pouco esta desconhecida realidade conhecida de que
andamos à procura. O seu ponto de partida é
simplesmente a expressão « vida bem-aventurada
[feliz] ». Em seguida cita o Salmo 144 (143),
15: « Feliz o povo cujo Deus é o Senhor
». E continua: « Para poder formar parte
deste povo e [...] viver eternamente com Ele, recordemos
que “o fim dos mandamentos é promover a
caridade, que procede de um coração puro,
de uma consciência reta e de uma fé sincera”
»(1 Tm 1,5). [11] Esta
vida verdadeira, para a qual sempre tendemos, depende
do fato de se estar na união existencial com
um « povo » e pode realizar-se para cada
pessoa somente no âmbito deste « nós
». Aquela pressupõe, precisamente, o êxodo
da prisão do próprio « eu »,
pois só na abertura deste sujeito universal é
que se abre também o olhar para a fonte da alegria,
para o amor em pessoa, para Deus.
15. Esta visão
da « vida bem-aventurada » orientada para
a comunidade visa, certamente, algo que está
para além do mundo presente, mas é precisamente
deste modo que ela tem a ver também com a edificação
do mundo – segundo formas muito distintas, conforme
o contexto histórico e as possibilidades por
ele oferecidas ou excluídas. No tempo de Agostinho,
quando a irrupção de novos povos ameaçava
aquela coesão do mundo que dava uma certa garantia
de direito e de vida numa comunidade jurídica,
tratava-se de fortalecer os fundamentos realmente basilares
desta comunidade de vida e de paz, para poder sobreviver
no meio da transformação do mundo.
Deixando de lado outros casos, procuremos
lançar um olhar sobre um momento da Idade Média,
emblemático sob determinados aspectos. Na consciência
comum, os mosteiros eram vistos como os lugares da fuga
do mundo (contemptus mundi) e do subtrair-se
à responsabilidade pelo mundo na procura da salvação
privada. Bernardo de Claraval, que, com a sua Ordem
reformada, trouxe uma multidão de jovens para
os mosteiros, tinha a este respeito uma visão
muito distinta. Na sua opinião, os monges desempenham
uma tarefa para bem de toda a Igreja e, por conseguinte,
também de todo o mundo. Com muitas imagens, ele
ilustra a responsabilidade dos monges pelo organismo
inteiro da Igreja, antes, pela humanidade; aplica a
eles esta frase do Pseudo-Rufino: « O gênero
humano vive graças a poucos; se estes não
existissem, o mundo pereceria... ».[12]
Os contemplativos (contemplantes) devem tornar-se trabalhadores
agrícolas (laborantes) – diz ele.
A nobreza do trabalho, que o cristianismo
herdou do judaísmo, estava patente nas regras
monásticas de Agostinho e de Bento. Bernardo
retoma este conceito. Os jovens nobres que afluíam
aos seus mosteiros deviam submeter-se ao trabalho manual.
É verdade que Bernardo diz explicitamente que
nem mesmo o mosteiro pode restabelecer o Paraíso;
mas defende que aquele deve, como lugar de amanho manual
e espiritual, preparar o novo Paraíso. O terreno
bravio de um bosque torna-se fértil, precisamente
quando, ao mesmo tempo, se deitam abaixo as árvores
da soberba, se extirpa o que de bravio cresce nas almas
e se prepara assim o terreno onde possa prosperar pão
para o corpo e para a alma.[13]
Por acaso, olhando precisamente a história atual,
não se constata novamente que nenhuma estruturação
positiva do mundo é possível nos lugares
onde as almas se brutalizam?
A transformação
da fé-esperança cristã no tempo
moderno
16. Como pôde
desenvolver-se a idéia de que a mensagem de Jesus
é estritamente individualista e visa apenas o
indivíduo? Como é que se chegou a interpretar
a «salvação da alma » como
fuga da responsabilidade geral e, consequentemente,
a considerar o programa do cristianismo como busca egoísta
da salvação que se recusa a servir os
outros? Para encontrar uma resposta à questão,
devemos lançar um olhar sobre as componentes
fundamentais do tempo moderno. Estas aparecem, com particular
clareza, em Francisco Bacon. Que uma nova época
tenha surgido – graças à descoberta
da América e às novas conquistas técnicas
que permitiram este desenvolvimento – é
um dado fora de discussão. Mas, sobre o que é
que se baseia esta mudança epocal? É a
nova correlação de experiência e
método que coloca o homem em condições
de chegar a uma interpretação da natureza
conforme às suas leis e, deste modo, conseguir
finalmente « a vitória da arte sobre a
natureza » (victoria cursus artis super naturam).[14]
A novidade – conforme a visão de Bacon
– está numa nova correlação
entre ciência e prática. Isto foi depois
aplicado também teologicamente: esta nova correlação
entre ciência e prática significaria que
o domínio sobre a criação, dado
ao homem por Deus e perdido no pecado original, ficaria
restabelecido.[15]
17. Quem lê
estas afirmações e nelas reflete com atenção,
reconhece uma transição desconcertante:
até então a recuperação
daquilo que o homem, expulso do paraíso terrestre,
tinha perdido esperava-se da fé em Jesus Cristo,
e nisto se via a «redenção»
. Agora, esta « redenção »,
a restauração do « paraíso
» perdido, já não se espera da fé,
mas da ligação recém-descoberta
entre ciência e prática. Com isto, não
é que se negue simplesmente a fé; mas,
esta acaba deslocada para outro nível –
o das coisas somente privadas e ultraterrestres –
e, simultaneamente, torna-se de algum modo irrelevante
para o mundo.
Esta visão programática
determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia
inclusive a atual crise da fé que, concretamente,
é sobretudo uma crise da esperança cristã.
Assim também a esperança, segundo Bacon,
ganha uma nova forma. Agora chama-se fé no progresso.
Com efeito, para Bacon, resulta claro que os descobrimentos
e as recentes invenções são apenas
um começo e que, graças à sinergia
entre ciência e prática, seguir-se-ão
descobertas completamente novas, surgirá um mundo
totalmente novo, o reino do homem. [16]
Nesta linha, apresentou um panorama das invenções
previsíveis, chegando ao avião e ao submarino.
Ao longo do sucessivo desenvolvimento da ideologia do
progresso, a alegria pelos avanços palpáveis
das potencialidades humanas permanece uma confirmação
constante da fé no progresso enquanto tal.
18. Simultaneamente,
há duas categorias que penetram sempre mais no
centro da idéia de progresso: razão e
liberdade. Aquele é sobretudo um progresso no
crescente domínio da razão, sendo esta
considerada obviamente um poder do bem e para o bem.
O progresso é a superação de todas
as dependências; é avanço para a
liberdade perfeita. Também a liberdade é
vista só como promessa, na qual o homem se realiza
rumo à plenitude. Em ambos os conceitos –
liberdade e razão – está presente
um aspecto político. O reino da razão,
de fato, é aguardado como a nova condição
da humanidade feita totalmente livre. Todavia, as condições
políticas deste reino da razão e da liberdade
aparecem, à primeira vista, pouco definidas.
Razão e liberdade parecem garantir por si mesmas,
em virtude da sua intrínseca bondade, uma nova
comunidade humana perfeita. Nos dois conceitos-chave
de «razão» e «liberdade»,
tacitamente o pensamento coloca-se sempre em contraste
com os vínculos da fé e da Igreja, como
também com os vínculos dos ordenamentos
estatais de então. Por isso, ambos os conceitos
trazem em si um potencial revolucionário de enorme
força explosiva.
19. Temos de lançar
brevemente um olhar sobre duas etapas essenciais da
concretização política desta esperança,
porque são de grande importância para o
caminho da esperança cristã, para a sua
compreensão e persistência. Há,
antes de mais nada, a Revolução francesa
como tentativa de instaurar o domínio da razão
e da liberdade agora também de modo politicamente
real. Inicialmente, a Europa do Iluminismo contemplou
fascinada estes acontecimentos, mas depois, à
vista da sua evolução, teve de refletir
de modo novo sobre razão e liberdade. Significativos
destas duas fases de recepção do que acontecera
na França são dois escritos de Emanuel
Kant, nos quais ele reflete sobre os acontecimentos.
Em 1792, escreve a obra Der Sieg
des guten Prinzips über das böse und die Gründung
eines Reichs Gottes auf Erden (A vitória
do princípio bom sobre o princípio mau
e a constituição de um reino de Deus sobre
a terra). Nela afirma: « A passagem gradual da
fé eclesiástica ao domínio exclusivo
da pura fé religiosa constitui a aproximação
do reino de Deus ».[17]
Diz também que as revoluções podem
apressar os tempos desta passagem da fé eclesiástica
à fé racional. O « reino de Deus
», de que falara Jesus, recebeu aqui uma nova
definição e assumiu também uma
nova presença; existe, por assim dizer, uma nova
« expectativa imediata »: o « reino
de Deus » chega onde a « fé eclesiástica
» é superada e substituída pela
« fé religiosa », ou seja, pela mera
fé racional.
Em 1794, no livro Das Ende aller
Dinge (O fim de todas as coisas), aparece uma imagem
diferente. Agora, Kant toma em consideração
a possibilidade de que, a par do fim natural de todas
as coisas, se verifique também um fim contrário
à natureza, perverso. Escreve a tal respeito:
« Se acontecesse um dia chegar o cristianismo
a não ser mais digno de amor, então o
pensamento dominante dos homens deveria tomar a forma
de rejeição e de oposição
contra ele; e o anticristo [...] inauguraria o seu regime,
mesmo que breve, (baseado presumivelmente sobre o medo
e o egoísmo). Em seguida, porém, visto
que o cristianismo, embora destinado a ser a religião
universal, de fato não teria sido ajudado pelo
destino a sê-lo, poderia verificar-se, sob o aspecto
moral, o fim (perverso) de todas as coisas ».[18]
20. O século
XIX não perdeu a sua fé no progresso como
nova forma da esperança humana e continuou a
considerar razão e liberdade como as estrelas-guia
a seguir no caminho da esperança. Todavia a evolução
sempre mais rápida do progresso técnico
e a industrialização com ele relacionada
criaram, bem depressa, uma situação social
completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores
da indústria e o chamado « proletariado
industrial », cujas terríveis condições
de vida foram ilustradas de modo impressionante por
Frederico Engels, em 1845. Ao leitor, devia resultar
claro que isto não pode continuar; é necessária
uma mudança. Mas a mudança haveria de
abalar e derrubar toda a estrutura da sociedade burguesa.
Depois da revolução burguesa
de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolução:
a proletária. O progresso não podia limitar-se
a avançar de forma linear e com pequenos passos.
Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu
este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de
pensamento, procurou iniciar este novo passo grande
e, como supunha, definitivo da história rumo
à salvação, rumo àquilo
que Kant tinha qualificado como o « reino de Deus
». Tendo-se diluída a verdade do além,
tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém.
A crítica do céu transforma-se na crítica
da terra, a crítica da teologia na crítica
da política. O progresso rumo ao melhor, rumo
ao mundo definitivamente bom, já não vem
simplesmente da ciência, mas da política
– de uma política pensada cientificamente,
que sabe reconhecer a estrutura da história e
da sociedade, indicando assim a estrada da revolução,
da mudança de todas as coisas.
Com pontual precisão, embora
de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situação
do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica,
as vias para a revolução. E não
só teoricamente, pois com o partido comunista,
nascido do manifesto comunista de 1848, também
a iniciou concretamente. A sua promessa, graças
à agudeza das análises e à clara
indicação dos instrumentos para a mudança
radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda
hoje. E a revolução deu-se, depois, na
forma mais radical na Rússia.
21. Com a sua vitória,
porém, tornou-se evidente também o erro
fundamental de Marx. Ele indicou com exatidão
o modo como realizar o derrubamento. Mas, não
nos disse, como as coisas deveriam proceder depois.
Ele supunha simplesmente que, com a expropriação
da classe dominante, a queda do poder político
e a socialização dos meios de produção,
ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito,
então ficariam anuladas todas as contradições;
o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em
si próprios. Então tudo poderia proceder
espontaneamente pelo reto caminho, porque tudo pertenceria
a todos e todos haviam de querer o melhor um para o
outro. Assim, depois de cumprida a revolução,
Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não
se achava qualquer indicação sobre o modo
como proceder.
É verdade que ele tinha falado
da fase intermédia da ditadura do proletariado
como de uma necessidade que, porém, num segundo
momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta «
fase intermédia » conhecemo-la muito bem
e sabemos também como depois evoluiu, não
dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás
de si uma destruição desoladora. Marx
não falhou só ao deixar de idealizar os
ordenamentos necessários para o mundo novo; com
efeito, já não deveria haver mais necessidade
deles. O fato de não dizer nada sobre isso é
lógica consequência da sua perspectiva.
O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu
que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem
e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece
sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que,
uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria.
O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato,
o homem não é só o produto de condições
econômicas nem se pode curá-lo apenas do
exterior criando condições econômicas
favoráveis.
22. Encontramo-nos
assim novamente diante da questão: o que é
que podemos esperar? É necessária uma
autocrítica da idade moderna feita em diálogo
com o cristianismo e com a sua concepção
da esperança. Neste diálogo, também
os cristãos devem aprender de novo, no contexto
dos seus conhecimentos e experiências, em que
consiste verdadeiramente a sua esperança, o que
é que temos para oferecer ao mundo e, ao contrário,
o que é que não podemos oferecer. É
preciso que, na autocrítica da idade moderna,
conflua também uma autocrítica do cristianismo
moderno, que deve aprender sempre de novo a compreender-se
a si mesmo a partir das próprias raízes.
A este respeito, pode-se aqui mencionar
somente alguns indícios. Antes de mais, devemos
perguntar-nos: o que é que significa verdadeiramente
«progresso »; o que é que ele promete
e o que é que não promete? No século
XIX, já existia uma crítica à fé
no progresso. No século XX, Teodoro W. Adorno
formulou, de modo drástico, a problematicidade
da fé no progresso: este, visto de perto, seria
o progresso da funda à megabomba. Certamente,
este é um lado do progresso que não se
deve encobrir. Dito de outro modo: torna-se evidente
a ambiguidade do progresso. Não há dúvida
que este oferece novas potencialidades para o bem, mas
abre também possibilidades abissais de mal –
possibilidades que antes não existiam. Todos
fomos testemunhas de como o progresso em mãos
erradas possa tornar-se, e tornou-se realmente, um progresso
terrível no mal. Se ao progresso técnico
não corresponde um progresso na formação
ética do homem, no crescimento do homem interior
(cf. Ef 3,16; 2 Cor 4,16), então aquele não
é um progresso, mas uma ameaça para o
homem e para o mundo.
23. No que diz respeito
aos dois grandes temas « razão »
e « liberdade », aqui é possível
apenas acenar às questões relacionadas
com eles. Sem dúvida, a razão é
o grande dom de Deus ao homem, e a vitória da
razão sobre a irracionalidade é também
um objetivo da fé cristã. Mas, quando
é que a razão domina verdadeiramente?
Quando se separou de Deus? Quando ficou cega a Deus?
A razão inteira reduz-se à razão
do poder e do fazer? Se o progresso, para ser digno
deste nome necessita do crescimento moral da humanidade,
então a razão do poder e do fazer deve
de igual modo urgentemente ser integrada mediante a
abertura da razão às forças salvíficas
da fé, ao discernimento entre o bem e o mal.
Somente assim é que se torna uma razão
verdadeiramente humana. Torna-se humana apenas se for
capaz de indicar o caminho à vontade, e só
é capaz disso se olhar para além de si
própria.
Caso contrário, a situação
do homem, devido à discrepância entre a
capacidade material e a falta de juízo do coração,
torna-se uma ameaça para ele e para a criação.
Por isso, falando de liberdade, é preciso recordar
que a liberdade humana requer sempre um concurso de
várias liberdades. Este concurso, porém,
não se pode efetuar se não for determinado
por um critério intrínseco comum de ponderação,
que é fundamento e meta da nossa liberdade. Digamos
isto de uma forma mais simples: o homem tem necessidade
de Deus; de contrário, fica privado de esperança.
Consideradas as mudanças da era moderna, a afirmação
de S. Paulo, citada ao princípio (Ef 2,12), revela-se
muito realista e inteiramente verdadeira. Portanto,
não há dúvida de que um «
reino de Deus » realizado sem Deus – e por
conseguinte um reino somente do homem – resolve-se
inevitavelmente no « fim perverso » de todas
as coisas, descrito por Kant: já o vimos e vemo-lo
sempre de novo. De igual modo, também não
há dúvida de que, para Deus entrar verdadeiramente
nas realidades humanas, não basta ser pensado
por nós, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso
encontro e nos fale. Por isso, a razão necessita
da fé para chegar a ser totalmente ela própria:
razão e fé precisam uma da outra para
realizar a sua verdadeira natureza e missão.
A verdadeira fisionomia da
esperança cristã
24. Retomemos agora
a questão: o que é que podemos esperar?
E o que é que não podemos esperar? Antes
de mais, devemos constatar que um progresso por adição
só é possível no campo material.
Aqui, no conhecimento crescente das estruturas da matéria
e correlativas invenções cada vez mais
avançadas, verifica-se claramente uma continuidade
do progresso rumo a um domínio sempre maior da
natureza. Mas, no âmbito da consciência
ética e da decisão moral, não há
tal possibilidade de adição, simplesmente
porque a liberdade do homem é sempre nova e deve
sempre de novo tomar as suas decisões. Nunca
aparecem simplesmente já tomadas em nossa vez
por outros – neste caso, de fato, deixaríamos
de ser livres. A liberdade pressupõe que, nas
decisões fundamentais, cada homem, cada geração
seja um novo início.
Certamente as novas gerações,
tal como podem construir sobre os conhecimentos e as
experiências daqueles que as precederam, podem
haurir do tesouro moral da humanidade inteira. Mas podem
também recusá-lo, pois este não
pode ter a mesma evidência das invenções
materiais. O tesouro moral da humanidade não
está presente como o estão os instrumentos
que se usam; aquele existe como convite à liberdade
e como sua possibilidade. Isto, porém, significa
que:
a) O reto estado das
coisas humanas, o bem-estar moral do mundo não
pode jamais ser garantido simplesmente mediante as estruturas,
por mais válidas que estas sejam. Tais estruturas
são não só importantes, mas necessárias;
todavia, não podem nem devem impedir a liberdade
do homem. Inclusive, as melhores estruturas só
funcionam se numa comunidade subsistem convicções
que sejam capazes de motivar os homens para uma livre
adesão ao ordenamento comunitário. A liberdade
necessita de uma convicção; esta não
existe por si mesma, mas deve ser sempre novamente conquistada
comunitariamente.
b) Visto que o homem
permanece sempre livre e dado que a sua liberdade é
também sempre frágil, não existirá
jamais neste mundo o reino do bem definitivamente consolidado.
Quem prometesse o mundo melhor que duraria irrevocavelmente
para sempre, faria uma promessa falsa; ignora a liberdade
humana. A liberdade deve ser incessantemente conquistada
para o bem. A livre adesão ao bem nunca acontece
simplesmente por si mesma. Se houvesse estruturas que
fixassem de modo irrevogável uma determinada
– boa – condição do mundo,
ficaria negada a liberdade do homem e, por este motivo,
não seriam de modo algum, em definitivo, boas
estruturas.
25. Consequência
de tudo isto é que a busca sempre nova e trabalhosa
de retos ordenamentos para as realidades humanas é
tarefa de cada geração: nunca é
uma tarefa que se possa simplesmente dar por concluída.
Mas, cada geração deve dar a própria
contribuição para estabelecer razoáveis
ordenamentos de liberdade e de bem, que ajudem a geração
seguinte na sua orientação para o reto
uso da liberdade humana, dando assim – sempre
dentro dos limites humanos – uma certa garantia
para o futuro também. Por outras palavras: as
boas estruturas ajudam, mas por si só não
bastam. O homem não poderá jamais ser
redimido simplesmente a partir de fora.
Equivocaram-se Francisco Bacon e os
adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele
inspirada, ao considerar que o homem teria sido redimido
através da ciência. Com uma tal expectativa,
está-se a pedir demasiado à ciência;
esta espécie de esperança é falaz.
A ciência pode contribuir muito para a humanização
do mundo e dos povos. Mas, pode também pode destruir
o homem e o mundo, se não for orientada por forças
que se encontram fora dela. Além disso, devemos
constatar também que o cristianismo moderno,
diante dos sucessos da ciência na progressiva
estruturação do mundo, tinha-se concentrado
em grande parte somente sobre o indivíduo e a
sua salvação. Deste modo, restringiu o
horizonte da sua esperança e não reconheceu
suficientemente sequer a grandeza da sua tarefa –
apesar de ser grande o que continuou a fazer na formação
do homem e no cuidado dos fracos e dos que sofrem.
26. Não é
a ciência que redime o homem. O homem é
redimido pelo amor. Isto vale já no âmbito
deste mundo. Quando alguém experimenta na sua
vida um grande amor, conhece um momento de « redenção
» que dá um sentido novo à sua vida.
Mas, rapidamente se dará conta também
de que o amor que lhe foi dado não resolve, por
si só, o problema da sua vida. É um amor
que permanece frágil. Pode ser destruído
pela morte. O ser humano necessita do amor incondicionado.
Precisa daquela certeza que o faz exclamar: «
Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados,
nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem
a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura
poderá separar-nos do amor de Deus, que está
em Cristo Jesus, nosso Senhor » (Rom 8,38-39).
Se existe este amor absoluto com a
sua certeza absoluta, então – e somente
então – o homem está « redimido
», independentemente do que lhe possa acontecer
naquela circunstância. É isto o que se
entende, quando afirmamos: Jesus Cristo « redimiu-nos
». Através d'Ele tornamo-nos seguros de
Deus – de um Deus que não constitui uma
remota « causa primeira » do mundo, porque
o seu Filho unigênito fez-Se homem e d'Ele pode
cada um dizer: « Vivo na fé do Filho de
Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim »
(Gal 2,20).
27. Neste sentido,
é verdade que quem não conhece Deus, mesmo
podendo ter muitas esperanças, no fundo está
sem esperança, sem a grande esperança
que sustenta toda a vida (cf. Ef 2,12). A verdadeira
e grande esperança do homem, que resiste apesar
de todas as desilusões, só pode ser Deus
– o Deus que nos amou, e ama ainda agora «
até ao fim », « até à
plena consumação » (cf. Jo 13,1
e 19,30). Quem é atingido pelo amor começa
a intuir em que consistiria propriamente a « vida
». Começa a intuir o significado da palavra
de esperança que encontramos no rito do Batismo:
da fé espero a « vida eterna » –
a vida verdadeira que, inteiramente e sem ameaças,
em toda a sua plenitude é simplesmente vida.
Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para
que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abundância
(cf. Jo 10,10), também nos explicou o que significa
« vida »: « A vida eterna consiste
nisto: Que Te conheçam a Ti, por único
Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste »
(Jo 17,3). A vida, no verdadeiro sentido, não
a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo
por si só: aquela é uma relação.
E a vida na sua totalidade é relação
com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos
em relação com Aquele que não morre,
que é a própria Vida e o próprio
Amor, então estamos na vida. Então «
vivemos ».
28. Surge agora, porém,
a questão: não será que, desta
maneira, caímos de novo no individualismo da
salvação? Na esperança só
para mim, que aliás não é uma esperança
verdadeira porque esquece e descuida os outros? Não.
A relação com Deus estabelece-se através
da comunhão com Jesus – sozinhos e apenas
com as nossas possibilidades não o conseguimos.
Mas, a relação com Jesus é uma
relação com Aquele que Se entregou a Si
próprio em resgate por todos nós (cf.
1 Tim 2,6). O fato de estarmos em comunhão com
Jesus Cristo envolve-nos no seu ser « para todos
», fazendo disso o nosso modo de ser.
Ele compromete-nos a ser para os outros,
mas só na comunhão com Ele é que
se torna possível sermos verdadeiramente para
os outros, para a comunidade. Neste contexto, queria
citar o grande doutor grego da Igreja, S. Máximo
o Confessor († 662), o qual começa por
exortar a não antepor nada ao conhecimento e
ao amor de Deus, mas depois passa imediatamente a aplicações
muito práticas: « Quem ama Deus não
pode reservar o dinheiro para si próprio. Distribui-o
de modo “divino” [...] do mesmo modo segundo
a medida da justiça ».[19]
Do amor para com Deus consegue a participação
na justiça e na bondade de Deus para com os outros;
amar a Deus requer a liberdade interior diante de cada
bem possuído e de todas as coisas materiais:
o amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro.[20]
A mesma conexão entre amor de Deus e responsabilidade
pelos homens podemos observá-la com comoção
na vida de S. Agostinho.
Depois da sua conversão à
fé cristã, ele, juntamente com alguns
amigos possuídos pelos mesmos ideais, queria
levar uma vida dedicada totalmente à palavra
de Deus e às realidades eternas. Pretendia realizar
com valores cristãos o ideal da vida contemplativa
expressa pela grande filosofia grega, escolhendo deste
modo « a melhor parte » (cf. Lc 10,42).
Mas as coisas foram de outro modo. Participava ele na
Missa dominical, na cidade portuária de Hipona,
quando foi chamado pelo Bispo do meio da multidão
e instado a deixar-se ordenar para exercer o ministério
sacerdotal naquela cidade. Olhando retrospectivamente
para aquela hora, escreve nas suas «Confissões
»: « Aterrorizado com os meus pecados e
com o peso da minha miséria, tinha resolvido
e meditado em meu coração, o projeto de
fugir para o ermo. Mas Vós mo impedistes e me
fortalecestes dizendo: “Cristo morreu por todos,
para que os viventes não vivam para si, mas para
Aquele que morreu por todos” (cf. 2 Cor 5,15)
».[21] Cristo morreu por todos. Viver para Ele
significa deixar-se envolver no seu « ser para
».
29. Para Agostinho,
isto significou uma vida totalmente nova. Assim descreveu
ele uma vez o seu dia-a-dia: « Corrigir os indisciplinados,
confortar os pusilânimes, amparar os fracos, refutar
os opositores, precaver-se dos maliciosos, instruir
os ignorantes, estimular os negligentes, frear os provocadores,
moderar os ambiciosos, encorajar os desanimados, pacificar
os litigiosos, ajudar os necessitados, libertar os oprimidos,
demonstrar aprovação aos bons, tolerar
o maus e [ai de mim!] amar a todos ».[22]
« É o Evangelho que me assusta »[23]
– aquele susto salutar que nos impede de viver
para nós mesmos e que nos impele a transmitir
a nossa esperança comum.
De fato, era esta precisamente a intenção
de Agostinho: na difícil situação
do império romano, que ameaçava também
a África romana e – no final da vida de
Agostinho – até a destruiu, transmite esperança,
a esperança que lhe vinha da fé e que,
contrariamente ao seu temperamento introvertido, o tornou
capaz de participar decididamente e com todas as forças
na edificação da cidade. No mesmo capítulo
das Confissões, onde acabámos de ver o
motivo decisivo do seu empenhamento « por todos
», diz ele: Cristo « intercede por nós.
Doutro modo desesperaria, pois são muitas e grandes
as minhas fraquezas! Sim, são muito pesadas,
mas maior é o poder da vossa medicina. Poderíamos
pensar que a vossa Palavra Se tinha afastado da união
com o homem e desesperado de nos salvar, se não
se tivesse feito homem e habitado entre nós ».[24]
Em virtude da sua esperança, Agostinho prodigalizou-se
pelas pessoas simples e pela sua cidade – renunciou
à sua nobreza espiritual e pregou e agiu de modo
simples para a gente simples.
30. Façamos
um resumo daquilo que emergiu no desenrolar das nossas
reflexões. O homem, na sucessão dos dias,
tem muitas esperanças – menores ou maiores
– distintas nos diversos períodos da sua
vida. Às vezes pode parecer que uma destas esperanças
o satisfaça totalmente, sem ter necessidade de
outras.
Na juventude, pode ser a esperança
do grande e fagueiro amor; a esperança de uma
certa posição na profissão, deste
ou daquele sucesso determinante para o resto da vida.
Mas quando estas esperanças se realizam, resulta
com clareza que na realidade, isso não era a
totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita
de uma esperança que vá mais além.
Vê-se que só algo de infinito lhe pode
bastar, algo que será sempre mais do que aquilo
que ele alguma vez possa alcançar.
Neste sentido, a época moderna
desenvolveu a esperança da instauração
de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos
da ciência e a uma política cientificamente
fundada, parecia tornar-se realizável. Assim,
a esperança bíblica do reino de Deus foi
substituída pela esperança do reino do
homem, pela esperança de um mundo melhor que
seria o verdadeiro «reino de Deus ». Esta
parecia finalmente a esperança grande e realista
de que o homem necessita. Estava em condições
de mobilizar – por um certo tempo – todas
as energias do homem; o grande objetivo parecia merecedor
de todo o esforço. Mas, com o passar do tempo
fica claro que esta esperança escapa sempre para
mais longe.
Primeiro deram-se conta de que esta
era talvez uma esperança para os homens de amanhã,
mas não uma esperança para mim. E, embora
o elemento « para todos » faça parte
da grande esperança – com efeito, não
posso ser feliz contra e sem os demais – o certo
é que uma esperança que não me
diga respeito a mim pessoalmente não é
sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se
evidente que esta era uma esperança contra a
liberdade, porque a situação das realidades
humanas depende em cada geração novamente
da livre decisão dos homens que dela fazem parte.
Se esta liberdade, por causa das condições
e das estruturas, lhes fosse tirada, o mundo, em última
análise, não seria bom, porque um mundo
sem liberdade não é de forma alguma um
mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário
um contínuo esforço pelo melhoramento
do mundo, o mundo melhor de amanhã não
pode ser o conteúdo próprio e suficiente
da nossa esperança. E, sempre a este respeito,
pergunta-se: Quando é « melhor »
o mundo? O que é que o torna bom? Com qual critério
se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos
se pode alcançar esta « bondade »?
31. Mais ainda: precisamos
das esperanças – menores ou maiores –
que, dia após dia, nos mantêm a caminho.
Mas, sem a grande esperança que deve superar
tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande
esperança só pode ser Deus, que abraça
o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos,
não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado
com um dom faz parte da esperança. Deus é
o fundamento da esperança – não
um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto
humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo
e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não
é um além imaginário, colocado
num futuro que nunca mais chega; o seu reino está
presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos
alcança. Somente o seu amor nos dá a possibilidade
de perseverar com toda a sobriedade dia após
dia, sem perder o ardor da esperança, num mundo
que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo
tempo, o seu amor é para nós a garantia
de que existe aquilo que intuímos só vagamente
e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é
«verdadeiramente» vida. Procuremos concretizar
ainda mais |